Verso Da Terra


Quando nasci nessa terra
Tudo era tão diferente.
Meu pai, como um velho de guerra,
Cuidava da terra e da gente.
Enquanto plantava,
Meu pai me mandava estudar.
Aí, fui morar na cidade.
Pra falar a verdade,
Fui morrer de saudade,
Eu queria voltar.
O tempo passou,
Eu cresci.
Muita coisa mudou
E eu nem vi.
E quando na terra de novo eu pisei

Fiquei muito tocado.
Minha mãe,
Com meu pai ao seu lado,
Pareciam a rainha e o rei.
Êita, vida sofrida bocado.
Êita, terra bonita.
Obrigado!

Nem Um Pouco Perfeito





Eu confesso que errei.

Confesso que fiz,

E que deixei de fazer.

Confesso que quis

E não aceitei.

Confesso que peguei

Sem nem mesmo poder.

Que estudei, eu confesso.

Que deixei de estudar, muito mais.

Que não aprendi.

Que eu li.

Que fiz escondido.

Que não dei a mínima

Pro acontecido.

Que briguei, que chorei,

Que eu ri quando não permitido.

Que fraquejei, que não sei.

Que passei despercebido.

Confesso que gostei,

Que zanguei, que olhei.

Confesso também que ouvi.

Que saí e que também não liguei.

Que não vi.

Que já me esqueci.

Que não me lembrei.

Bati, prometi, apanhei.

Me vinguei.

Também me confundi.

Aceitei, subornei e fingi.

Tanta coisa, eu confesso que vi.

Confesso, não me arrependi.

Confesso que é pouco.

Tanta coisa eu confesso.

No entanto, uma coisa eu te juro.

É por você que estou ficando louco.

Mão



Um poema de nada.
Não é homenagem,
Não é sacanagem.
Não é.
Um poema calado.
Um silêncio com rima,
Ou sem.
Não diz.
Desdizer, também não.
Não é bom,
Nem ruim.
Não é caro
Ou barato.
Nao é.
Bonito, bem longe.
Feio, tão pouco.
De gente sã
Ou de louco, não é.
Um poemo que nada diz,
Quiçá contradiz.
Não fala do bem,
Nem também da maldade.
Não é de saudade.
Nem é com vontade também.
Não é de verdade,
Não mente.
Não é fantasia,
Nem realidade.
Cabeludo, barbudo,
Pesado, bem denso.
Careca, lavado,
Bem leve, ralado.
Não sei.
Cansado, malvado,
Bem quente, parado.
Ou não.
Nada de sentimento,
Nada de pensamento.
Que nada.
É coisa nenhuma.
De modo nenhum.
Não é caso algum.
É a mão.
O poeta passivo
Do meu poema de nada.
Sem ser obrigada,
Hoje é ela que escreve.

Velho Moreira: O Profeta





No boteco do Djalma, amigos, cerveja e futebol na mesa.



– Anota o que eu tô dizendo, pessoal. Esse ano não dá outra. Dá Vasco.

– Da segundona, Moreira? Estamos falando da elite e você vem falar de segundona, Moreira?

– Só anota. Só anota – dizia o velho.

– E que time é esse o coringão, eim! O cara também é um fenômeno.

– Esse ano é mesmo o da redenção do timão.

– Poderia até ser, se não fosse a Lusa.

– Lusa, Moreira? O que tem a Lusa?

– Pô, Moreira, Segundona de novo?

– Só anota. Só anota.

– Ei! Tem o Flamengo, pô. Agora com o imperador… Sei não eim?!

– Também não sei não. Vai ter que jogar muito.

– Pois anota essa também. O canhoto vai arrebentar e ainda vai ser artilheiro da Copa esse ano. Só anota. Só anota.

– Pô, Moreira. A Copa é ano que vem. Deixa o cara jogar primeiro, Moreira.

– Tô falando! Só anota. Só anota.

– O Moreira parou no tempo. Só pode.

– Uma dentro, Moreira. Só uma dentro.



Coitado do Moreira. Não é velhice. É saudade daquele tempo em que o futebol era só paixão. Que caboclo tinha que suar a camisa. O craque só seria craque se fosse mesmo um craque e pronto. Do tempo do Pelé, Garrincha, Sócrates, Tostão. Que safra! Mas esse tempo foi embora e dele só restou o Moreiro, o velho profeta. Porém, Moreira também é do tempo que malandro não dava ponto sem nó.



– Moreira! Sua mulher no telefone.

– Xiii! Que marcação, eim profeta!

– Olha a pressão, Moreira!

– Pô, Moreira! É homem a homem?

– Ei! Onde o Moreira vai?

– Volta aqui, Moreira! Não vai pagar a conta?

– Só anota, Djalma. Só anota.

Cara de Pastel



Em uma pastelaria qualquer… Enfermaria qualquer, mãe e enfermeiras disputam a guarda das crianças:

– Pronto, pode pegar o seu bebê.
– Nossa!
– O quê?
– Ele tem uma cara de pastel.
– Deixa eu ver. ah! Desculpa. Toma esse! Dê aqui o meu pastel.
– Olha, não é a cara do pai?
– Sim. Mas o importante é que tem saúde, não é mesmo?
– Coitado! que feio.
– Deixa eu ver. Eita, desculpa! Passa o de carne para cá também.
– E o meu filho?
– Não, obrigada! Estou de regime.
– Cadê o meu filho?
– Aqui!
– Mas esse é de carne. Cadê o de queijo?
– Ei! o meu filho, cadê?
– Pronto, não chora. Olha a enfermeira chegando com o seu de queijo.
– Qual dos dois é o meu filho?
– Esse pastel aqui… quer dizer, esse garotinho.
– E o meu de frango?
– Na mão!
– Ai, que lindo!
– Ai, que gostoso!

Banho Errado

Não tem coisa melhor
Que um banho bem tomado.
Lava a orelha e ao redor,
Só não pode lavar errado.

Banho bom, sem escovão,
Lava a frente e o outro lado.
Lava o braço, a perna e a mão.
Mas não pode lavar errado.

Começa de cima, descendo.
O corpo fica bem lavado.
E pra não ficar fedendo,
Não pode lavar errado.

Agora enxuga, rapidão.
E averigua o resultado.
“Ih, sujou! Errei a mão.”
Sabão em barra é ruim bocado.

O Menino da Lua



Quando Marcinho nasceu,
Era dia, dormiu.
Só despertou quando a lua acordou.
Eis que Marcinho surgiu.
Foi assim na primeira semana.
Marcinho apagava quando o sol surgia.
E quando a lua ascendia,
Marcinho acordava.
Nunca chorava, só ria.
Na segunda semana sua mãe estranhou.
Correu com Marcinho ao médico,
Saber do doutor o que acontecia.
Não podia Marcinho dormir todo o dia.
Mas o doutor,
Que quase sempre sabia,
Não soube dizer o que faria à Maria.
Seu filho é forte,
Não tem doença,
Logo se acostuma.
Não se preocupe,
Se apegue na crença
Que tudo se apruma.
Foi o que Maria fez.
Todos os dias,
Antes de se deitar,
Antes d’o sol raiar,
Rezava mais de um terço por vez.
O pai de Marcinho, Seu João,
Pediu demissão,
Saiu do emprego diurno.
Virou guarda noturno.
Prometeu à Maria
Que faria de tudo,
Que iria ajudar.
Portanto, fez o que podia:
Levou o Marcinho para trabalhar.
O emprego era bem sossegado.
Marcinho ficava ao seu lado,
Quietinho dentro do carrinho.
Seu pai sempre dando carinho.
Que dó de Maria.
Facilmente perdia a razão.
De dia atolada cuidando da casa,
De noite era fralda e a amamentação.
Até que Marcinho cresceu.
Seu pai já estava cansado.
Era muito difícil ficar acordado
E cumprir o que prometeu.
Sua mãe precisou trabalhar.
Passava o dia na confeitaria.
Marcinho dormindo, não podia falar.
Acordado, sua noite era muito vazia.
Todos os dias,
Maria dizia o quanto lhe amava.
Seu filho, no entanto,
Triste parecia.
Seu pai, a noite, já não se agüentava.
Marcinho acordava,
Seu João dormia.
Foi então que, em uma fria manhã,
Seu João confessou à Maria
Que essa vida ele só deixaria
Quando Marcinho estivesse ao seu lado,
Acordado de baixo da luz do dia.
Era noite,
Marcinho acordou.
Como de costume, comeu, se banhou.
Seu pai lhe esperava na sala, calado.
Boa noite, meu filho.
Venha cá ao meu lado.
Marcinho, inseguro ficou.
O que fazia seu pai acordado?
Mas também ficou muito encantando.
Sem pensar, ao seu lado sentou.
A noite foi longa,
Quase não terminou.
E o que João, ao seu filho deu,
Era muito mais que Marcinho sonhou,
Era muito mais que, à Maria, prometeu.
Depois de uma noite ensinando a lição,
Cumpriu, Seu João, a missão.
Marcinho aprendeu a escrever.
Maria, só vendo pra crer.
Antes de o sol nascer,
Seu pai lhe abraçou muito honrado.
Agora, meu filho, comece a escrever,
Porque é escrevendo que sonha acordado.
Marcinho sentou-se a mesa,
Com um pouco de medo.
E escreveu sobre o amor que sentia dos pais.
Continuou sem nem ver que logo ficou cedo.
Que as noites sozinhas ficaram pra trás.
Seu pai se deitou, muito exausto,
Dormiu.
Marcinho só percebeu que era dia
Quando sua mãe perguntou a seu filho o que acontecia.
O menino, que ainda não sabia, sorriu.
Só quando cresceu,
Marcinho entendeu
Que na última noite ao seu lado,
Seu pai havia lhe deixado um legado.
Que, enfim, para a vida ter luz,
Além de gente que com o braço produz,
Precisa também de um outro bocado
De gente que sonhe acordado.