O Menino da Lua



Quando Marcinho nasceu,
Era dia, dormiu.
Só despertou quando a lua acordou.
Eis que Marcinho surgiu.
Foi assim na primeira semana.
Marcinho apagava quando o sol surgia.
E quando a lua ascendia,
Marcinho acordava.
Nunca chorava, só ria.
Na segunda semana sua mãe estranhou.
Correu com Marcinho ao médico,
Saber do doutor o que acontecia.
Não podia Marcinho dormir todo o dia.
Mas o doutor,
Que quase sempre sabia,
Não soube dizer o que faria à Maria.
Seu filho é forte,
Não tem doença,
Logo se acostuma.
Não se preocupe,
Se apegue na crença
Que tudo se apruma.
Foi o que Maria fez.
Todos os dias,
Antes de se deitar,
Antes d’o sol raiar,
Rezava mais de um terço por vez.
O pai de Marcinho, Seu João,
Pediu demissão,
Saiu do emprego diurno.
Virou guarda noturno.
Prometeu à Maria
Que faria de tudo,
Que iria ajudar.
Portanto, fez o que podia:
Levou o Marcinho para trabalhar.
O emprego era bem sossegado.
Marcinho ficava ao seu lado,
Quietinho dentro do carrinho.
Seu pai sempre dando carinho.
Que dó de Maria.
Facilmente perdia a razão.
De dia atolada cuidando da casa,
De noite era fralda e a amamentação.
Até que Marcinho cresceu.
Seu pai já estava cansado.
Era muito difícil ficar acordado
E cumprir o que prometeu.
Sua mãe precisou trabalhar.
Passava o dia na confeitaria.
Marcinho dormindo, não podia falar.
Acordado, sua noite era muito vazia.
Todos os dias,
Maria dizia o quanto lhe amava.
Seu filho, no entanto,
Triste parecia.
Seu pai, a noite, já não se agüentava.
Marcinho acordava,
Seu João dormia.
Foi então que, em uma fria manhã,
Seu João confessou à Maria
Que essa vida ele só deixaria
Quando Marcinho estivesse ao seu lado,
Acordado de baixo da luz do dia.
Era noite,
Marcinho acordou.
Como de costume, comeu, se banhou.
Seu pai lhe esperava na sala, calado.
Boa noite, meu filho.
Venha cá ao meu lado.
Marcinho, inseguro ficou.
O que fazia seu pai acordado?
Mas também ficou muito encantando.
Sem pensar, ao seu lado sentou.
A noite foi longa,
Quase não terminou.
E o que João, ao seu filho deu,
Era muito mais que Marcinho sonhou,
Era muito mais que, à Maria, prometeu.
Depois de uma noite ensinando a lição,
Cumpriu, Seu João, a missão.
Marcinho aprendeu a escrever.
Maria, só vendo pra crer.
Antes de o sol nascer,
Seu pai lhe abraçou muito honrado.
Agora, meu filho, comece a escrever,
Porque é escrevendo que sonha acordado.
Marcinho sentou-se a mesa,
Com um pouco de medo.
E escreveu sobre o amor que sentia dos pais.
Continuou sem nem ver que logo ficou cedo.
Que as noites sozinhas ficaram pra trás.
Seu pai se deitou, muito exausto,
Dormiu.
Marcinho só percebeu que era dia
Quando sua mãe perguntou a seu filho o que acontecia.
O menino, que ainda não sabia, sorriu.
Só quando cresceu,
Marcinho entendeu
Que na última noite ao seu lado,
Seu pai havia lhe deixado um legado.
Que, enfim, para a vida ter luz,
Além de gente que com o braço produz,
Precisa também de um outro bocado
De gente que sonhe acordado.

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5 thoughts on “O Menino da Lua

  1. Caralho xará. Pirei. Muito bom, muito bom mesmo.

    Tava até com medo de vocês terem elogiado tanto a ponto de minhas espectativas não ficarem a altura do texto, mas ficou sim!
    Muito bom. Muito bom mesmo.
    Parabéns.

    Gostar

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