Com A Palavra: A Ficção

Eu não tinha 8 anos e minha rotina era passar a manhã na escola e a tarde toda me divertindo. Depois da refeição reforçada, com muito óleo e eletricidade, quando não estava na sala de projeção de realidade 3D, brincava com meus amigos de piqueesconde na sala de teletransporte molecular. Às vezes perdíamos (ou ganhávamos) horas procurando uns aos outros. Era cada lugar esquisito que a gente se metia. Outro dia, o pentelho do Joãozinho 13R05, um modelo bem semelhante ao meu, foi parar no Alto Alaska, e só para rastreá-lo gastamos mais de um dia. Era muito divertido.

Outras vezes, ainda que proibido, pegávamos as pistolas de EstopimX11 Beta de nossos pais e brincávamos de Paint Ball na sala de Projeção de Realidade 3D. Lógico que depois tínhamos que ouvir a bronca de nossos pais, quando não éramos também castigados. Mas valia à pena, afinal, naquela época, o que era ficar uma semana sem poder me teletransportar se eu ainda tinha meu Velocípede RX2 para me distrair e voar.

Porém, um dia, em mais uma tarde normal de diversão na máquina de teletransporte do meu pai, me deparei com o que mudaria completamente a minha vida. Era a vez de Mariazinha T11 contar e nós nos escondermos. Entrei correndo no tubo e apertei distraído os botões de comando. A máquina ficou louca e até hoje não sei como fui parar naquele lugar, naquele tempo. Foi muito chocante o que vi. Os robôs eram totalmente diferentes.. Me assustei muito e eles também. Primeiro, não era mais uma máquina qualquer de teletransporte. A cápsula do meu destino agora se parecia com uma orelha gigante. No desespero, com aquele tanto de robôs me olhando e gritando, apertei os botões daquela engenhoca antiga, indiquei o meu novo destino e sumi.

Tudo teria sido só uma aventura, apesar de muito estranha, se não fosse o que lhes conto agora. Quando me estiquei para apertar os botões do teletransporte, um pedaço de material branco e fino que estava sobre a bancada da máquina ficou preso em meu braço. Na hora foi chocante. O objeto não identificado voltou comigo para casa, e quando consegui me recompor o joguei bem longe de mim. Minha mãe, com a gritaria, veio correndo saber o que estava acontecendo. Me viu olhando o objeto e parou, boquiaberta. Seu rosto era de quem sabia o que era mas de que não estava acreditando.

Mais tarde, sentado ao seu lado e segurando o objeto, minha mãe me explicou do que se tratava. Era o papel. Há milhares de anos atrás as pessoas documentavam no papel. Era estranho, pois minha mãe ainda disse que era com as próprias mãos. Não tinha aquela de conectar-se com o computador, era só pegar o que chamavam de lápis e “digitar”. Minha mãe me contou uma história surpreendente de que existiam pessoas que passavam o dia documentando com aquele objeto. Alguns inventavam histórias surpreendentes, que até se pareciam muito com a nossa vida de hoje.

Aquilo me deixou com a Pulga T07 atrás da orelha. Sem querer, voltei ao passado e sem querer eu gostei. Agora, sem querer eu estou aqui e não consigo querer outra coisa se não voltar no tempo outra vez.

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