A Correria

O plano estava pronto em minha cabeça. Eu deveria ser rápido, sem deixar evidências. Deveria, também, evitar testemunhas para impedir qualquer constrangimento depois. Por isso, precisava ser cauteloso e esperar a hora certa para agir.


Tocou a sirene do recreio. Era a hora. Ela saiu da sala, estava linda. Mais até do que deveria. Foi para o lugar de sempre, de frente às salas do pré e do maternal. Lá era mais tranqüilo e ela não gostava da bagunça que se transformava o pátio do colégio. Como eu gostava dela.

Tomei coragem e fui. Eu sabia o que tinha que fazer. Estava tudo pronto dentro da minha cabeça. Só precisava respirar um pouco mais fundo. Fui chegando mais perto e quanto mais próximo, mais nervoso eu ficava. Mas não tinha outro jeito, tinha que ser naquela hora.

Quando resolvi falar, ouvi o pentelho do Juninho gritando atrás de mim e correndo feito um louco:
– Pedrinho! Pique-pega! CORRE!!!
Sem pensar, comecei a correr e a gritar:
– FERNANDA! EU TE AMO!!!

E o Juninho, atrás de mim, não parava de correr. Eu estava assustado. Foram dias me preparando para aquele momento. Agora eu estava ali, feito um doido, gritando o nome da menina mais linda da escola e com o menino mais chato na minha cola.

Quando vi, Fernanda também estava correndo atrás de mim, gritando o que eu achei que fosse “Você não é homem!!!”. Anos depois eu soube, por ela mesma, que só queria saber o meu nome. No meio daquela bagunça não daria para escutar nada mesmo.

No fim, eu só consegui ser rápido, como tinha planejado, e todo mundo virou testemunha do meu amor por Fernanda. Mas infância é assim mesmo, às vezes a gente passa da conta, n’outras a gente deixa de fazer sem se dar conta que era besteira. Mas o que vale mesmo é ter histórias pra contar.

A Verdade Sobre o Amor


O amor me deixa meio zonzo.
Bom que eu sou muito seguro.
Seguro muito bem o queixo se te vejo.
Se te beijo no escuro, caio duro.
Amor é a doce candura,
Do herói e do vilão.
Faço o tipo durão,
Mas, na verdade,
Sou o esboço
Do tipo cheio de paixão,
Pele, pescoço e osso.
O amor é a coisa mais pura
Feita pela cabeça dura
E pelo mole coração.

A Saída

Pedrinho acordou diferente.
Teve um sonho cheio de gente.
Todos pediam-lhe ajuda.
“Vamos, Pedrinho. Madruga!

Levantou e comeu.
Correu pro quintal.
Pegou uma colher.
Escolheu o local.

Pedrinho pôs-se a cavar,
E quando avistou uma luz,
O menino voltou pro seu lar e gritou:
“Está pronto, meu povo! Quem vos conduz?”

O primeiro a chegar
Era um pobre velhinho.
“Pronto, senhor. Pode entrar”
O velho entrou e sumiu devagar.

No buraco, outro homem entrou.
Antes de partir, ainda lhe falou:
“Obrigado, Pedrinho.
Você me salvou.”

O terceiro era uma criança.
Apesar de pequena,
Perdia a esperança.
Queria uma vida que valesse a pena.

Por último, uma mulher.
Essa sabia o que queria.
Queria apenas partir
Sem saber para onde iria.

Foi então que Pedrinho enxergou
Que para algumas pessoas, na vida,
Pouco importa onde fica a entrada
Quando, no fim, elas só querem a saída.

Mar de Gente


Tem gente
Que dá passos
Maiores que as pernas.
Tem gente
Que não dá um passo
Com as próprias pernas.

Tem gente
Que cresce
Rápido demais.
Tem gente
Que é grande
Mas demora a crescer.

Tem gente
Que nunca chora.
Chora quem
Não tem gente.
Só não chora
Quem não sente.

Tem gente

Que é fraco
Da memória.
Tem gente
Que…
Que…

Pizza Alemã

Ingredientes:

2 dúzias de deputados
1 senado inteiro
1/2 kg de crise mal passada
Sal grosso
3 caminhões de terra

Modo de preparo:

Deixe a crise fritar por alguns mandatos. Pique bem os deputados e senadores. Despeje sal grosso sobre os corpos… digo, sobre os ingredientes. Vire devagar os caminhões de terra sobre eles. Misture. Ferva ao sol por alguns dias.

Dica: antes de picar os deputados e senadores, retire o excesso de bens, como imóveis, carros e aviões.

Porção: 184 milhões de pessoas.