Especialista em Coisa














Esse negócio
Que você diz que sente,
De te doer as costas,
De ter dor no dente,
Que você diz que gosta
E que você diz que sente.
Esse negócio
Que te dói os braços,
Que as vezes coça,
Que, pra todos, mostra
E, pra ninguém, mente.
Esse negócio,
Posso estar errado,
Mas ainda quero
Que você me ouça.
Não parece
Que é muito sério,
Mas parece
Que é alguma coisa.

Toda Menina










Toda menina que é magra
Queria ser um pouco
Mais gorda.

Toda Menina que é santa
Queria ser um pouco
Mais doida.

Toda menina que canta
Queria ter voz de
Mulher rouca.

Toda menina que samba
Queria ter a cadeira
Solta.

É que menina que muito tem
Acha sempre que a vida
É pouca.

Ter muita coisa na vida
Te tira do sério
E te deixa louca.

Samba menina
Toda retorcida,
Esquece o que você tem.

Samba menina
Que uma sacudida
Nunca fez mal pra alguém.

O Ticket





Paraibano, acabado de chegar na cidade grande, arrumou emprego de faz-de-tudo em uma loja de eletrônicos no Shopping Center da capital. Seu primeiro serviço seria entregar alguns produtos que uma freguesa muito rica havia comprado. Eram tantos produtos que não caberiam na motinha que havia adquirido com o dinheiro da casa que deixou lá no sertão. Iria na van da empresa.

– Sabe dirigir, seu Máique?
– Sei, sim sinhô!
– Então pegue a van e vá entregar esses produtos nesse endereço aqui. Não demore. Vai!
– Pode deixar!

Tudo era muito moderno pro paraibano. Os tempos suados vividos no interior do sertão não lhe serviam mais pra muita coisa. Era tanta modernidade. Coisa igual só tinha visto nos filmes que passavam na televisão do Seu Benedito, o dono da vendinha lá da sua cidade.

Entrou na van e partiu. Porém, logo ali, na saída do shopping, entre o estacionamento e a rua, Máique ficou cara a cara com o que, pra ele, era a sua pior inimiga: a tecnologia. Quem poderia imaginar que uma cancela de estacionamento seria tão tecnológica e, ao mesmo tempo, amedrontadora para o simples nordestino.

Um braço cumprido de aço estendido à sua frente, na horizontal, impedia a sua saída. Ao lado, uma caixa pequena de metal com um botão vermelho guardava alguma coisa que Máique ainda não sabia o que era. Sabia que botões serviam pra alguma coisa, normalmente pra ajudar ou atrapalhar.

Instintivamente, apertou o botão e esperou. Nada aconteceu. Máique estava inseguro e um pouco impaciente. Tinha uma entrega pra fazer e não podia ficar ali o dia inteiro. Apertou o botão novamente e, quase que no mesmo instante, ouviu uma voz desesperada que saía de dentro da caixa:

– Insira o tíqueti, pú favô!

O paraibano se assustou. De onde vinha aquele grito?

– Insira o tíqueti! – repetiu a caixinha.
– Quem tá aí??? – gritou Máique, assustado, se dirigindo para a pequena caixa.
– Óie! O cê precisa inserí o tíqueti na máquina. Insira o tíqueti, pú favô! – disse novamente e já impaciente.
– Onde é que o cê tá? Saia daí de dentro e lute como homi, cabra frouxo!
– In-si-ra o tí-que-ti, pú fa-vô!

Na hora, Máique reconheceu o sotaque que vinha de dentro daquele cubo de metal. Era também um nordestino que estava ali, preso naquela caixa. De dentro do estacionamento, uma fila de carros já havia se formado atrás da van. Alguns estavam nervosos com a demora, mas nenhum estava tão assustado como o Máique.

– Comé que o cê foi pará aí dentro, homi??? – gritou Máique, quase que chorando.
– O senhô precisa colocá o tíqueti na máquina.
– Calma que eu vô lê tirá daí. – disse o paraibano enquanto descia ligeiro da van.

Máique começou a puxar a caixa, numa tentativa de abri-la a todo custo. Os seguranças logo foram chamados e o rapaz, ao ver que ia ser pego, pulou o tal braço do robô que estava à sua frente e saiu em disparada pra fora do estacionamento.

Assustado, resolveu, naquela mesma hora, que não ficaria mais um minuto na cidade grande. Venderia sua moto, o único bem que lhe sobrou, e voltaria já para o sertão. Ele sabia que essa tal de convergência tecnológica era uma grande mentira.

Naquele dia, Máique pôde comprovar sua tese de que “por trás de um grande invento, há sempre um nordestino ganhando um mísero tento.” 

Medo Dobrado














Tem gente
Que não tem jeito.
Ao invés de criar gato,
Preá, lesma ou rato,
Resolve criar cachorro,
Tipo cachorro do mato.
Voltando do supermercado
Fiquei meio aperreado
Com um cartaz que dizia:
“Procura-se um procurado”.
Não sabia se corria 
Da maldita redundância 
Ou do malvado Pitbull
Perdido na vizinhança.

Palavra





Como é engraçado
Perceber as palavras.
Algumas se amam,
Outras se odeiam.
Umas com as outras,
Outras meio loucas
Que, junto com outras,
Formam outras coisas.
Sozinhas,
Algumas são fortes.
Várias juntas talvez
Não aguentem a força 
De uma de pequeno porte.
Mas são sempre palavras,
Das mais comuns 
Às mais distintas. 
São sempre palavras.
As vezes amadas, 
Que sempre cativam.
Outras que agridem,
São as mais esquecidas.
Substantivos e artigos.
Adjetivos.
Tem as antônimas 

E também as sinônimas,
Sempre a favor.
Às vezes de rir
Outras de chorar.
Aonde for,
São sempre palavras.
No entanto, se um dia 
Fosse escolhida
Apenas uma palavra
Pra representar essa vida,
Dentre as palavras,
A escolhida
Seria a menos esperada.
Talvez, a menos percebida.
Seria, pra sempre,
Palavra.

Filho da Mãe


Pedrinho era um menino errado. E quanto mais crescia mais se enveredava pelos caminhos tortos da vida. Desde pequenino sua mãe o alertava: “se hoje você já é assim, o que será de você quando crescer”.

Pedrinho comia as unhas. Todas. Não sobrava uma para enganar sua mãe. Essa, que se esgotava brigando com o menino, travava uma luta constante contra o mau caminho que Pedrinho desenhava para si mesmo.

Não bastassem as unhas, tinham as toalhas. Inacreditavelmente, Pedrinho largava, todos os dias, a toalha molhada na porta do quarto. Isso quando não sobrava pra cama. Toalha jogada na cama era imperdoável.. Nada mais triste para uma mãe, que cuidou tão bem de seu filho, que de tudo deu a ele, do que ver uma toalha molhada em cima da cama.

Os anos foram passando e sua mãe, já sem forças para fazer alguma coisa, aos poucos, entregava Pedrinho à vida. Nem as vasilhas do almoço o menino lavava na hora certo. Fora os dias em que ele nem lavava. Sempre dizia que era esquecimento, mas sua mãe sabia que era pura maldade, falta de compaixão e de amor por ela. Seu filho não queria mais saber da mulher que tanto zelou por sua vida com muito carinho, coisa que só mesmo uma mãe poderia fazer. Amor de mãe.

Ela queria mesmo é morrer. Não tinha mais motivo para a vida. Por que não ser ladrão, drogado, assassino em série, quem sabe? Não, ele nasceu como a maioria, normal. Os médicos avisaram que ele seria assim e que, certamente, não apresentaria muitos problemas durante seu percurso existencial. Pena ela não ter dado ouvidos à ciência. Sua descrença a fez ignorar os fatos.

Hoje, Pedrinho colhe o que plantou. Seu quarto é uma desordem. Roupa suja no lugar de roupa limpa, chulé, brinquedos na sala, cueca no chão… A lista é extensa. E ele já tem dez anos. Se nessa idade sua vida é essa desordem, o que será do futuro desse pobre coitado? É mais um caso perdido.

Todos os dias, antes de se deitar, sua mãe se ajoelha e pede perdão pelo que fez, sem se conformar com tanta desgraça em uma única vida. É um preço alto que paga por alguma coisa que fez de errado. Não é justo. Como mesmo disse um dia a seu marido, “A margem de lucro desse negócio está muito alta”.