Filho da Mãe


Pedrinho era um menino errado. E quanto mais crescia mais se enveredava pelos caminhos tortos da vida. Desde pequenino sua mãe o alertava: “se hoje você já é assim, o que será de você quando crescer”.

Pedrinho comia as unhas. Todas. Não sobrava uma para enganar sua mãe. Essa, que se esgotava brigando com o menino, travava uma luta constante contra o mau caminho que Pedrinho desenhava para si mesmo.

Não bastassem as unhas, tinham as toalhas. Inacreditavelmente, Pedrinho largava, todos os dias, a toalha molhada na porta do quarto. Isso quando não sobrava pra cama. Toalha jogada na cama era imperdoável.. Nada mais triste para uma mãe, que cuidou tão bem de seu filho, que de tudo deu a ele, do que ver uma toalha molhada em cima da cama.

Os anos foram passando e sua mãe, já sem forças para fazer alguma coisa, aos poucos, entregava Pedrinho à vida. Nem as vasilhas do almoço o menino lavava na hora certo. Fora os dias em que ele nem lavava. Sempre dizia que era esquecimento, mas sua mãe sabia que era pura maldade, falta de compaixão e de amor por ela. Seu filho não queria mais saber da mulher que tanto zelou por sua vida com muito carinho, coisa que só mesmo uma mãe poderia fazer. Amor de mãe.

Ela queria mesmo é morrer. Não tinha mais motivo para a vida. Por que não ser ladrão, drogado, assassino em série, quem sabe? Não, ele nasceu como a maioria, normal. Os médicos avisaram que ele seria assim e que, certamente, não apresentaria muitos problemas durante seu percurso existencial. Pena ela não ter dado ouvidos à ciência. Sua descrença a fez ignorar os fatos.

Hoje, Pedrinho colhe o que plantou. Seu quarto é uma desordem. Roupa suja no lugar de roupa limpa, chulé, brinquedos na sala, cueca no chão… A lista é extensa. E ele já tem dez anos. Se nessa idade sua vida é essa desordem, o que será do futuro desse pobre coitado? É mais um caso perdido.

Todos os dias, antes de se deitar, sua mãe se ajoelha e pede perdão pelo que fez, sem se conformar com tanta desgraça em uma única vida. É um preço alto que paga por alguma coisa que fez de errado. Não é justo. Como mesmo disse um dia a seu marido, “A margem de lucro desse negócio está muito alta”.

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