Estações

Começamos no verão,
A temperatura aumenta.
Passamos pelo outono,
Caem nossas vestimentas.
Invernamos em meu quarto,

Deitamos em cama pronta.
Primavera se apronta,
Nossa última estação.

A Vizinha

Quem conheceu Claudinha há uns anos atrás não acreditou quando a viu descendo na rodoviária, voltando da longa temporada que passou na Europa. Não era magra. Era um espetáculo. Corpão violão, alta, tipo modelo de vitrine de loja de biquine. Muita carne. E nessa época ela não fazia o menor esforço pra manter a boa forma. Comia de tudo, e muito.


Mas a própria Claudinha sabia que estava fora de forma. Já voltou com um propósito em mente. Ia retomar o posto de rainha da gostosura. Estava resolvida. Ia fazer regime, fechar a boca, acabar com a graça de comer, só pra perceber, de novo, o sorriso estampado na boca da marmanjada quando a viam.
Todos lhe alertaram sobre os cuidados que deveria tomar. Sobre as tentações que iriam surgir e sobre como ela deveria fugir delas. Ela só não acreditou que seria tão difícil.

– Suculento’s Grill, boa noite!

– Alô!
– Suculento’s Grill!?
– Oi! É… Vocês ainda têm aquele sanduíche de bacon com tomate, alface, queijo e molho barbecue?
– Temos sim. É o X-Suculento’s Bacon. Só que agora ele está maior, ganhou mais uma carne de hambúrguer e mais queijo.
– Ái…! Você pode repetir o nome, por favor?
– X-Suculento’s Bacon!
– Que espetáculo de nome! Olha, eu vou querer um.
– Tudo bem. Qual é o seu nome?
– Cláudia Gomes.
– …Claudinha?
– Alô!? Cláudia?
Ligação cai.

Todos já sabiam que Claudinha estava de volta e que também estava de regime. Principalmente as mulheres. É que apesar de Claudinha ser querida por quase todos, as mulheres morriam de inveja do seu corpão. Quando souberam que ela tinha engordado, ficaram aliviadas, e até com um sorrisinho de vingança no canto da boca.

Estava difícil pra Cláudia. Não tinha coisa que mais gostava de fazer do que ligar na lanchonete e pedir o X-Suculento’s Bacon. Ela amava. Antes de ir pra Europa, todos os dias ela ligava na lanchonete e pedia um caprichado. Com o regime, teria que esquecê-lo por um bom tempo, ou quem sabe, pra sempre.

– Suculento’s Grill, boa noite!

– Alô! É… Eu queria pedir um sanduíche.
– Sim. Pode fazer o seu pedido.
– Eu queria aquele de bacon…
– O X- Suculento’s Bacon?
– Isso! Esse mesmo! Lindo!
– Que isso, assim eu fico sem jeito.
– Não você! O sanduíche!
– Ah, sim! Claro.
– Você pode me dizer o que vem nele?
– Pois sim. Ele vem com duas camadas de pães, agora com dois hambúrgueres grill na chapa, tomate, alface, bacon, duas fatias de queijo e molho barbecue.
– …Não pára! Vai! Continua!
– Mas é só isso.
– Ah… desculpa, eu me empolguei.
– Quer fazer o pedido?
– Não. Obrigado! Mas você pode repetir os ingredientes, por favor? Dessa vez, mais devagar, tá?
Ligação cai.

Apesar de todas as recomendações, estava difícil pra Claudinha conseguir fugir das tentações. Por ter extrapolado quando mais jovem, ter comido sem nenhum pudor, talvez tenha chegado a hora de pagar por todo o excesso. Esse seria o preço pela juventude transviada, mesmo ela achando que não iria agüentar por muito tempo.

– Suculento’s Grill, boa noite!

– Boa noite! Eu gostaria de fazer um pedido.
– Pois sim! Qual é o seu nome?
– Cláudia Gomes.
– Claudinha?
– É! Sou eu sim. Você vai anotar o meu pedido ou não?
– Mas, Cláudia. E o regime?
– Por favor! Sem perguntas. É um X-Suculento’s Bacon, bem caprichado. Ah! E um refrigerante também.
– Tudo bem. Confirma o endereço, por favor?
– Avenida das flores, número 35, apartamento 1302.
– 1302? Não seria o 1301?
– Não. É o 1302 mesmo, por favor!
– Ok! Vai demorar uns trinta minutos, tudo bem?
– Pode ser! E só mais uma coisa. Eu queria que, junto com o sanduíche, vocês enviassem uma carta dizendo o seguinte: “Vizinha. Receba com carinho este sanduíche como forma de agradecimento a todo cuidado que teve com o meu apartamento no período que estive fora. A única coisa que peço é que o coma na sacada de sua sala e, se possível, espere o vento que vem do leste bater para abri-lo. Com carinho, Claudinha!”