Pessoas são livros

*Crônica publicada no jornal O Popular

Ando por aí como quem entra numa grande livraria atrás de livros: devagar, observando as capas, lendo os títulos e descobrindo novos escritores.

Ando sem pressa, o primeiro olhar está em busca de uma capa interessante. Procuro arte, algo que provoque desejo em mim. Capas bonitas são, antes de tudo, autênticas. A originalidade me provoca mais do que a beleza da perfeição.

Capas são artes e, como arte, a beleza não está na perfeição, mas na surpresa que as imperfeições provocam. Pessoas também são bonitas assim, nas suas imperfeições. Pessoas perfeitas são tão interessantes como capas da Barsa. Livro tem que ser bom pra ler, mas acima de tudo, tem que ser bom pra decorar nossas casas.

Passemos aos títulos. Me apaixono facilmente por eles. Pode até ser que o livro não seja tão bom, mas se o título é interessante, não esqueço. Um dos primeiros livros que li pós adolescência se chamava “Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei”. Não lembro da história.

Avanço às sinopses, que normalmente ficam nos versos dos livros. Se tem “aclamado pela crítica” ou “recomendado pelo The New York Times” devolvo. Nada contra, é que prefiro os livros ainda não lidos que os best-sellers. A busca é por tesouros escondidos na livraria. Tipo fetiche por virgens. Não levo um best-seller pra cama.

Com as pontas dos dedos faço outra seleção, leio trechos do miolo, investigo se a escrita é bem feita, se flui. Quando leio as crônicas do Veríssimo nem penso em livro. É como que estivesse no cinema vendo filme. Observo o cenário, me apego aos personagens, ouço a trilha e os ruídos, gargalho de rir e até espero os créditos subirem antes de fechar a obra.

A caminhada termina na seção que mais gosto: a poesia. Se pudesse levava todas pra cama. A poesia tem esse charme que outros livros não têm, o seu descompromisso com o que diz. Poesia só diz. Leio e releio o mesmo verso como se tivesse lido dois versos diferentes. A poesia é bipolar.

Pago pela poesia, seguro ela na mão, levo pra casa, tomo o meu banho enquanto ela me espera na cama. Depois me deito e, antes de dormir, a poesia ainda me cobre de amor.

Pessoas são livros. Algumas são boas de ler, outras não. E eu prefiro me entregar à poesia.

“Coloco a poesia na mesa,
ligo o barulho da chuva,
abro um vinho…
hoje vou me encontrar
sozinho.”

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