Formigas carregadeiras entram em casa de bunda

Quinze anos atrás ou um pouco menos eu não gostava muito de ler e odiava os livros. A leitura era chata e eu só lia porque, de certa forma, me obrigavam. Quem escolhia os autores também não devia ter tanto gosto por livros, mas cumpria com muito rigor o papel de escolher uma leitura bem chata.

Se eu lia era pelos motivos mais rasos: passar de ano, vestibular ou castigo. Não existia prazer. Nem imaginava que leitura e prazer pudessem andar juntos. Os culpados eram muitos: a escola, que não tinha vocação para uma educação libertadora, que não libertava seus professores para educar, que não libertavam seus alunos para pensar, que não libertavam seus pensamentos. E eu, que definitivamente não gostava de ler.

Foi sem querer que comecei a ter gosto pela leitura. Tropecei nos livros da pequena biblioteca que meus pais tinham em casa. Sem obrigação criei vício e fui encontrando aos poucos uma poesia que ainda não havia sido apresentada para mim, a moderna. Ninguém havia me contado que poesia podia ter graça, charme e falar, por exemplo, de insetos, como no “Jardim da minha amiga/todo mundo feliz/até a formiga”, de Paulo Leminski. O modernismo me poetizou.

Os modernos me mostraram que simplicidade é sinônimo de riqueza sim, apesar de William Shakespeare já ter anunciado isso bem antes, que “a simplicidade e o silêncio dizem mais que a eloquência”. A poesia moderna é fruto da imaginação, que surge nas coisas cotidianas, pequenas, e se agiganta nos jogos de palavras, nas redes semânticas e no ritmo. Oswald de Andrade reforça a questão da imaginação quando versa “Aprendi com meu filho de dez anos que a poesia é a descoberta das coisas que eu nunca vi”. E é isso, uma poesia que dá infinitude às coisas que findam.

Se você leva a poesia moderna muito a sério é provável que não a entende tão bem. Na poesia morosa de Mário Quintana ele diz que “A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda”. Um jeito diferente de pensar o progresso, mas ainda bem simples. Dizer que versos singelos como o de Quintana não são poesia é negar o que eles tem de melhor: o poder de nos tirar o riso.

Certa vez tive o privilégio de falar com uma turma de crianças de 8 a 12 anos de idade, e foi um prazer constatar que a poesia está mais próxima da ingenuidade deles que da nossa cansada maturidade. Eles viajaram na poesia e mostraram mais dispostos para receber os versos do que nós. Declamei o título dessa coluna, um verso de Manoel de Barros, e as crianças gargalharam: “Formigas carregadeiras entram em casa de bunda”. Tem jeito mais desajeitado de entrar em casa que de bunda? E com a bunda de uma formiga, que tem muito mais saculejo.

A poesia precisa mais dos sacolejos das bundas das formigas que dos bundões duros dos poetas. Precisa de mais liberdade para soar poesia. É preciso ser jovem para fazer e receber poesias simples sem resistências. A poesia moderna, de fato, não é para os mais sabidos. É para os que ainda não sabem. O não saber é poético.

“Sejamos sempre novos, como nos velhos tempos, quando os velhos eram bem mais novos e quando os novos ainda nem pensavam no tempo”.

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