Tudo que eu não sou eu devo à poesia

A poesia não precisa falar de amor. Não precisa ser carinhosa, nem bonita, nem educada. A poesia não precisa ser dos namorados, dos apaixonados, dos amantes. Não precisa ser lida a dois, nem falar de saudades. Também não precisa ser uma declaração amorosa, melosa, dengosa, carinhosa… definitivamente, a poesia não precisa falar de amor. Mas pode.

“Tenho fases,
Como a lua;
Fases de ser sozinha,
Fases de ser só sua.” (Cecília Meireles).

A poesia também não precisa ser revolucionária. Não precisa ser forte, nem autoritária. Não precisa falar de política, nem do caos, nem da desordem. Não precisa ser como uma porrada no peito, um soco no estômago ou um chute no saco. Não precisa ser anarquista, nem sadomasoquista, nem mórbida. A poesia não precisa defender nenhum ponto de vista. Mas pode.

“Morre-se nada quando chega a vez;
É só um solavanco na estrada por onde já não vamos;
Morre-se tudo quando é o justo momento;
E não é nunca o momento.” (Mia couto).

Outra coisa que a poesia não precisa ser é engraçada. Não precisa fazer rir, muito menos gargalhar. Não precisa ser a cura para os momentos de angústia, nem o alívio para os momentos de tensão. Não precisa ser remédio para depressão, nem precisa ser surpreendente ou inusitada. A poesia não precisa ser simpática. Mas pode.

“Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura
Tendo-os na ponta do Nariz.” (Mário Quintana).

A poesia não tem obrigação de ser alguma coisa, e é por isso que ela pode ser tanto. Pode ser o remédio num dia de dor, ou a graça no meio de um dia bem chato, ou uma declaração de amor para casais apaixonados. E, acima de tudo, ela pode ser nada e isso já basta para a poesia ser importante para um bocado de gente.

O que a poesia tem de mais sublime é a sua desobrigação de ser. Poesia não nasce com função. Nasce de um poeta. E um poeta não pode ser mais que poeta quando escreve. Não pode ser médico, nem psicólogo, muito menos um conselheiro amoroso. Ou seja, não precisa ser especialista de nada para fazer poesia.

As únicas coisas que um poeta precisa é gostar de palavras e, principalmente, de abusar do direito de contradizer-se (pois é isso que fazem as pessoas que não sabem de nada, se contradizem).

Ser poeta é não ser.

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