A menina com molinhas na cabeça

Tinha uma menina que nasceu com uma beleza diferente. Sua pele era de um tom embombonzado, noturno. Sua boca, engrandecida. E os olhos de jabuticaba graúda davam até vontade de pegar como quem colhe fruta do pé. Seu cabelo encaracolado era motivo de briga na família.

O cabelo era tão jeitoso, que mal cresceu e seus irmãos já disputavam vez pra penteá-lo. Todo dia era um que ia fazendo cachinhos na cabeça da menina. E quando terminava, aqueles montinhos encaracolados pareciam com molinhas saltitando. A menina era a que mais gostava das molinhas.

E tinha mais.

É que depois de tudo, da menina com a pele embombonzada, com a boca engrandecida, os olhos de jabuticaba e o cabelo de molinhas, vinha a mãe, dona de tudo aquilo, e colocava um laço bem bonitinho na ponta do cabelo da menina, como se dissesse “tá pronto o presente”. Era mesmo um presente pra família.

O bombonzinho foi crescendo assim, mergulhada nesse afeto, respingando amor em todo mundo. Quando aprendeu a falar, tinha graça até nas palavras. O que tinha de bombom por fora, tinha de doce por dentro. Era uma gostosura.

Aí foi pra escola, lugar de aprender as coisas e ficar ainda mais bonita.

Quem dera!

Mal a menina começou a estudar e a sua graça foi se amiudando. Além de aprender o “bê a bá”, desaprendeu a gostar de bombom, de cachinhos no cabelo e de si. É que na escola nem todo mundo gostava de molinhas na cabeça. Tinha gente que amava, mas o que mais magoava a menina era gente que não gostava de cor.

Foi crescendo assim, ouvindo elogios em casa e se desfazendo dos cachinhos na rua. Tinha dia que até chorava com tamanha confusão e perguntava triste “como pode alguém não gostar de bombom?”.

Quando fez 15 anos pediu pra sua mãe que desfizesse os cachinhos pra festa. Alisou o cabelo, ficou linda, mas perdeu um pouquinho de si quando quis agradar todo mundo.

E a sua adolescência foi assim: entre cachos e lisos, confusa. Pois sempre tinha alguém que preferia escolher os docinhos pela cor que pelo sabor. Coisa que os olhos de jabuticaba ainda não conseguiam enxergar com clareza pra entender.

Uma história de gente bonita, mas também sofrida com as maldades das pessoas. De negros que desfilam seus cachos, mas que por vezes precisam usar as molinhas que tem nos cabelos pra pular essas pedras do caminho.

Ações afirmativas que insiram de forma igualitária na sociedade os negros e minorias vitimadas não são esmolinhas, são molinhas de cabelo. São pequenos recursos, mas fundamentais para que negros discriminados superem as barreiras que nós construímos e ainda não derrubamos.

“A discriminação por cor é uma ótima forma de separar um branco e um preto de um idiota”.

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