O debate que quase ninguém viu

​Os candidatos se cumprimentam com um singelo aperto de mão, mera formalidade. Por dentro, queriam se abraçar. Os dois aparentam tensão, afinal, são amigos de muito tempo. O cenário é um bar. O Bar do Poeta.

O apresentador do debate, o dono do estabelecimento e poeta desconhecido, dá boa noite a todos que estão na mesa (dois ou três outros amigos e alguns vizinhos de mesa que escutam de lado). Avisa que o debate será aos vivos, apresenta os dois candidatos, poetas contemporâneos também desconhecidos, e informa as regras do debate: vale tudo, poesia autoral e de outros autores, cada bloco do debate será com um tema sorteado por ele e cada candidato terá um tempo para declamar uma poesia sobre o assunto.

O apresentador dá início retirando o primeiro tema da urna: marginalidade. Os candidatos sorriem. A regra não estava tão clara sobre quem deveria começar. Da esquerda pra direita, começam os dois juntos:

– Marginal é quem escreve à margem, / deixando branca a página…

Um dos amigos interrompe rindo, pede desculpas e permite que o outro prossiga com a poesia:

– …para que a paisagem passe / e deixe tudo claro à sua passagem. / Marginal, escrever na entrelinha, / sem nunca saber direito / quem veio primeiro, / o ovo ou a galinha. Paulo Leminski, o louco. – Conclui.

Todos sorriem com com a polêmica do último verso. O apresentador passa a palavra para a réplica do outro candidato, que prefere nem comentar pra não atrapalhar o momento.

Ainda de riso no rosto, o dono do bar se prepara para retirar o segundo tema. Chacoalha a urna improvisada em uma camisinha de cerveja. Dentro, palavras que eles mesmos haviam escolhido minutos antes, entre um goró e outro. Retira o segundo bilhete: sorriso. Começa o segundo candidato:

– Que eu não esqueça que a subida mais escarpada e mais à mercê dos ventos
é sorrir de alegria. De Clarice Lispector, minha musa. – Suspiram. E o candidato passa a bola para a réplica do amigo, que já emenda:

– Certo dia, / Uma brisa passou por mim / Carregando uma folha de papel em branco / Como se eu não a notasse. /  Anotei: que classe!. Minha autoria. – Risos na mesa, mas o apresentador questiona sobre a ausência do sorriso no verso.

– O sorriso vem depois que termina – completa com mais risos dos telespectadores.

E o debate se estende pela noite, parecendo não ter hora pra acabar, entre poesias e filosofias de botequim, temas diversos, menos política, até que o apresentador decide encerrar o evento:

– Candidatos, o tempo de vocês acabou. Vamos embora que eu preciso fechar o bar. Amanhã é dia de votar e a lei seca já está valendo.

– Ah não! Só mais uma, poeta. – Pede quase chorando um dos candidatos. Os amigos da mesa acompanham o choro, até que o apresentador concede a colher de chá.

– Tá bem, tá bem! Só mais uma. Mas como os bilhetes acabaram, a última rodada é de tema livre.

– Não, poeta. – Exclama o adversário entre risos – Só mais uma cerveja… a saideira! A saideira!!!

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