Numa vida bem vivida, cada segundo que passa é uma saudade que fica

Já contei que, em agosto do ano passado, fiz o Caminho de Compostela, na Espanha. Foram 20 dias caminhando, conhecendo pessoas e vivenciando histórias difíceis até de lembrar. Além da mochila com roupas e itens de higiene, só levei meu celular, que me serviria como máquina fotográfica e bloco de notas para um pequeno diário de viagem. Sou bom de perder as coisas, principalmente a memória.
 
No décimo dia do Caminho, depois de fazer vários registros, o aparelho caiu e quebrou. Gastei horas chorando a perda para Jacinto, um amigo espanhol. Cansado de me ouvir reclamar, me prometeu um aparelho mais resistente. “Te apresento o caderno e a caneta”, disse estendendo suas mãos com o presente. Rimos, eu agradeci e o restante dos dias registrei nesse caderno, que só fui reencontrar essa semana, perdido em casa. As linhas a seguir são dos últimos dias no Caminho:
 
“Dia 11, Foncebadon a Ponferrada: dia difícil. A Cruz de Ferro era linda. Muitas baixadas duríssimas. Passamos por povoados bonitos, tomei banho no rio de Molinaseca, me acalmei. Meu relógio quebrou. Cheguei ao albergue tarde, mas sem saber a hora. Dia duro. A hospedagem era boa. Tomei banho, comi e Dormi.
 
Dia 12, Ponferrada a Cacabelos: saímos cedo. Nos despedimos de Jacinto, que terminava o Caminho ali. Seguimos eu, Omar e Catalina. Eu e Omar seguimos conversando, enquanto Catalina sumia no horizonte. As dores nas pernas voltaram com tudo. Parei várias vezes, me alonguei. Omar me ajudou, mas antes de chegar a Villafranca, parei de tanta dor. Reencontramos Catalina. Chamei um táxi. Omar e Catalina seguiram a pé, levei suas mochilas. Cheguei a Cacabelos ao meio dia. Tomei banho e cochilei. Acordei com gritos de fora. Eram meus amigos me procurando. Estavam exaustos. Descansaram e saímos para almoçar. À noite, senti que não conseguiria continuar o caminho a pé. Eu estava muito machucado. Amanhã seria outro dia difícil, com mais despedidas, inclusive do Caminho. Vou de ônibus a Santiago.

Dia 13, Cacabelos/Santiago: o dia começou triste, como os últimos dias. Primeiro me despedi de Omar, que acordou cedo para continuar a caminhada. Depois, de Catalina, que iria descansar por um dia antes de continuar a pé. Arrumei minha mochila e parti. Fui de táxi para Villafranca. Chegando lá, esperei a tabacaria abrir para comprar o bilhete para Santiago. Almocei, tomei uma garrafa de vinho sozinho esperando as horas passarem. Comprei um relógio para compensar as horas que perdi. O ônibus chegou vazio. Cada assento tinha uma tela de Led com internet. Mandei notícias para a família. Passei por Coruña. Que cidade bonita! Logo cheguei a Santiago. Me emocionei. Encontrei o albergue, um monastério lindo, um castelo grande e antigo. Primeira noite que dormiria em um quarto individual. Do albergue, consegui mandar mais notícias para o Brasil. O Caminho terminava hoje para mim. Mas a minha sensação é que ele estava apenas começando. Tomara que eu nunca me esqueça do que vivi.”.

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