Bilhete de louco

Quando uma criança fala que “mãe é a pele da gente”, ela não está só fazendo poesia, está libertando as palavras para morarem em outro lugar. Ela está povoando a imaginação.

Para compreender o que é poesia, temos que despovoar esse mundo que vivemos para habitar um novo. Esse novo mundo é fantasioso, mas também existe, mesmo sendo na imaginação. Viver na imaginação é um viver diferente, muito simples… a imaginação é um lugar onde só as pessoas que deliram, alucinam ou enlouquecem conseguem entrar.

Existem várias formas de visitar o mundo da imaginação. Crianças, por exemplo, entram e saem livremente de lá (crianças mais entram que saem). Têm crianças, inclusive, que se perdem na imaginação e nunca mais voltam… são pequenos astronautas, mágicos, guerreiros medievais, super-heróis, que ganham função permanente no mundo da imaginação e ficam por lá, vivendo de alucinações.

Outras, voltam, mas demoram um bocado e só aparecem quando a mãe grita em definitivo da janela da sala, que dá de frente pro quintal: “MENINO, PARA DE ALUCINAR! DESCE JÁ DESSA ÁRVORE E VEM COMER”. É aí que a criança desimagina, desce correndo pisando nos galhos, desviando das jabuticabas e carimba a terra com as mãos, como quem se apodera do chão. Algumas até quebram o braço quando caem da imaginação, de tão altas que imaginam.

Mas o mundo da imaginação também é habitado por gente crescida. São chamadas de artistas as pessoas que imaginam na fase adulta. Tem artista de rua, de circo, de profissão, rico e pobre. No mundo da imaginação, a bilheteria é beneficente. Para entrar, você precisa doar um novo planeta pra imaginação. É o jeito que deram para aumentar o universo de quem delira.

O primeiro adulto que conheci que vivia no mundo da imaginação foi um escritor, Rubem Alves. Ele dizia que “As pessoas ajustadas são indispensáveis para fazer as máquinas funcionarem. Mas só as desajustadas pensam outros mundos.”. Pensar em outro mundo é contribuir para a desutilidade das coisas. Quando as coisas nascem, a gente trata de dar utilidade pra cada uma delas. Aí, uma coisa que podia ser tantas outras, se fecha e se cansa de si. É nessa hora que o imaginador chega e trata de dar liberdade às palavras: “Vai, coisa! Vai ser outra coisa!”. E aí, chapéu vira cartola, que vira casa de coelho, que vira casa de riso de criança. É outra coisa.

Foi com Rubem Alves que descobri a poesia, lugar de descansar as palavras. E elas ficam por lá até que se gostem e comecem a se beijar. A poesia são palavras que se beijam. Ficam naquele namoro por horas. Umas até se casam, mas não são muito fiéis. Você acha que é uma coisa, mas é outra. As palavras te enganam. No mundo da imaginação, fiéis não conseguem nem entrar.

Outro dia viajei para a imaginação e, antes que a porta do mundo novo se abrisse, escrevi que “quando as palavras tiram seus óculos de grau para brincar, é porque vão brincar de fazer poesia. Que a poesia é essa brincadeira que você não enxerga começo, nem fim.”. Me disseram que eu estava louco. Entrei.

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