Sou do tempo que formiga picava e doía

Hoje, quando comecei a escrever essa crônica, percebi que já sou uma pessoa que pode começar várias crônicas usando a expressão “sou do tempo que…”. Quer dizer que eu já tenho idade para contar algumas histórias que só aconteciam antigamente.

Sou do tempo que formiga picava e doía. Sou desse tempo, que criança andava descalça, jogava bola no asfalto da rua, machucava a planta do pé nas pedrinhas de brita, brincava no meio do mato (sou do tempo que mato era mato de verdade, não era graminha sintética, verdinha) e chorava quando formiga picava. Sou do tempo que formiga picava e doía.

Sou do tempo que quando o amigo gritava da porta pra gente brincar, eu saía correndo e, de tão feliz que ficava, até esquecia de calçar os chinelos. E a gente ia brincar de pega e de ninja no meio do mato alto que dava nos lotes vazios do bairro. Aliás, sou do tempo que bairro era cheio de lotes vazios.

Sou do tempo que as cidades tinham mais verde que concreto. Os bairros que ficavam mais afastados do centro tinham poucas casinhas e muitos lotes vazios. E era lá que as crianças mais gostavam de brincar, nos lotes vazios, que eram as praças daquele tempo. Sou do tempo que os bairros eram cheios de lotes vazios e também de crianças. As ruas daquele tempo eram abarrotadas de crianças.

E a gente, quando ia brincar, corria pro mato, mas não entrava de qualquer jeito. Antes, tirava a camisa e amarrava no rosto de um jeito que parecia uma máscara de ninja. E só ficavam os olhos e o nariz para fora, por questões de sobrevivência… que a gente era ninja, mas um ninja ainda em começo de carreira. Uniformizado, corria pra subir o muro e pular nesse mato igual os ninjas faziam nos filmes. Só assim começava a brincadeira, depois de escalar a parede do muro e pular no meio do mato. Sou do tempo que nem todo mundo podia ser ninja.

E tinha de tudo no mato: até cobra, que eu nunca vi, mas muita gente do bairro já tinha ficado de frente para o bicho. Eu morria de medo de ficar de frente para o bicho, mas a vontade de brincar era tão grande que eu até me esquecia de ter medo e saía correndo para brincar.

No meio do mato a gente encontrava de tudo. Cachorro e gato de rua brincava de pega no meio do mato. Sou do tempo que quem cuidava dos bichos da rua eram os próprios moradores do bairro. Nesse tempo, os gatos e os cachorros eram todos compartilhados. A rua era a casa dos bichos, todo mundo era dono de todos, por isso, não era estranho que os gatos e os cachorros tivessem mais de um nome cada.

Sou do tempo que formiga picava e doía. E a gente chorava, porque sentia dor de verdade. E também sentia tantas outras coisas: sentia o chão batido de terra, a dureza do asfalto, o frescor da grama… sentia feliz com os amigos do bairro, os cachorros, os gatos… sentia o corpo todo pinicando quando voltava pra casa, sentia a chinela da mãe quando via a gente descalço… Nesse tempo, a gente sentia tudo que vivia.

Sou do tempo que formiga picava e doía.

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