Eu te amo, perdoa-me, eu te amo…

A despedida é um momento bonito de afeto. Por mais duras e difíceis que sejam algumas despedidas, são momentos repletos de amor e afeto. Não existe despedida entre pessoas que não se gostam. Pessoas que não se gostam se cumprimentam, se saúdam, dizem “tchau”, mas não se despedem. Despedidas só existem onde existe afeto. São momentos breves, cheios de beleza e amor.

Eu já fui babaca antes de entender o que acontece em uma despedida. Me lembro do dia que uma antiga e eterna amiga me telefonou desmarcando um encontro por conta da morte do pai de outra amiga. Me lembro que não tive sensibilidade para entender sua dor. Eu ignorei sua tristeza por desconhecimento completo sobre despedidas.

Até que um dia perdi meu avô. O avô que me esperava na porta da escola quase todos os dias, que ligava toda noite pra saber como estavam seus netos, que organizava o almoço de todos os domingos… esse avô tão presente havia falecido. Morreu, junto com todos esses momentos que ocupava em nossas vidas.

Lembro-me de quando cheguei ao velório. Parecia o velório do amor. Estavam todos em silêncio profundo… E eu, que não me afetava com mortes, senti a ponta da saudade atravessar meu estômago e quase morri de dor. Naquele dia eu chorei uma dor que ainda não havia sentido. Pela primeira vez, eu chorei uma despedida.

Eu estava ao lado dos meus irmãos, dos meus tios, da minha mãe, todos abraçados ao redor do amor. Naquele momento, o que existia era afeto. Estávamos juntos, procurando os sentimentos mais bonitos para entregar ao meu avô. Sentimentos que, vez ou outra, se transformavam em palavras, ou semi-palavras, quebradas pela chuva que escorria dos nossos olhos. Era um momento paradoxalmente triste e alegre. De saudade e amor. Era uma despedida.

Quando nos despedimos de uma pessoa, entregamos a ela o que temos de mais bonito: os desejos de uma vida melhor, a força que ela precisa para partir, uma declaração inesperada de amor, a surpresa de ela saber o quanto vale para nós… e um pouco da nossa vontade de reencontrá-la. Nas despedidas, dos mortos ou vivos, entregamos um pacote repleto de afetuosidades que, se transformado em palavras, vira poesia.

Tem um poeminha que gosto, é de Cora Coralina, e se chama “Poeminha Amoroso”. Um poema de amor e perdão. É uma entrega de um amor bem puro, como forma de agradecimento a alguém. E é com ele que eu me despeço dessa crônica, oferecendo esse poema à minha antiga e eterna amiga, Amanda:

Este é um poema de amor /
tão meigo, tão terno, tão teu… /
É uma oferenda aos teus momentos /
de luta e de brisa e de céu… /
E eu, /
quero te servir a poesia /
numa concha azul do mar /
ou numa cesta de flores do campo. /
Talvez tu possas entender o meu amor. /
Mas se isso não acontecer, /
não importa. /
Já está declarado e estampado /
nas linhas e entrelinhas /
deste pequeno poema, /
o verso; /
o tão famoso e inesperado verso que /
te deixará pasmo, surpreso, perplexo… /
eu te amo, perdoa-me, eu te amo…

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