Viver é embolar e desembolar papéis

O relógio toca, desperto, olho nos ponteiros, são cinco horas da manhã. É hora de levantar. Me espreguiço na cama, tomando cuidado para acordar meus vizinhos, me sento na beliche e, com os pés, procuro a escada. Desço, organizo minha cama, pego a mochila, o tênis, o saco de dormir e vou para o corredor do albergue terminar de organizar meus pertences. Por lá, me junto a outros peregrinos, que também se preparam para mais um dia de caminhada. Termino de organizar a mochila e desço para a cozinha. Tomo um café rápido ao lado de outros companheiros, como um pão dormido que comprei no dia anterior e saio para começar a peregrinação. Eu estou no interior da Espanha, no meio do Caminho de Compostela.

Ainda está escuro quando saio do albergue e começo a caminhar. Se tudo der certo, vou andar por, pelo menos, trinta quilômetros até o próximo pueblo maior. Por isso, começo devagar, para aquecer o corpo antes de colocá-lo com mais vigor na jornada. Ando lento, enquanto observo a cidade acordar silenciosa. Deixo que alguns peregrinos mais apressados me passem. Olho os campos enormes de girassóis que se aproximam. Eles fazem fronteira com a cidade. Ando devagar porque não quero me machucar. Numa caminhada tão longa, qualquer exagero pode comprometer o resto do percurso.

A cidade começa a ficar para trás. Margeio a estrada por alguns metros até que uma seta amarela surge em uma placa, indicando que é hora de deixar o asfalto e seguir pela trilha. O Caminho de Compostela é quase todo feito por trilhas que, vez ou outra, cruzam estradas para continuar pelos campos e morros do outro lado. São por estes caminhos que chegamos aos pequenos povoados do interior espanhol, onde o tempo e a vida parecem pausados na história milenar do país.

O sol já está alto quando resolvo parar e descansar um pouco. Minha vida já passou inteira na minha cabeça. A família, os amigos, o trabalho, as histórias… Me sinto esvaziando uma lixeira lotada de papéis, onde estão anotadas todas as minhas histórias. Tiro papel por papel, desembolo e leio. Relembro uma história, embolo o papel novamente e jogo-o para trás, como se a vida fosse ficando para trás com cada bola arremessada. Parece que viver é e esse desembolar de papéis.

Sigo pelos próximos quilômetros com o corpo já dando sinal de cansaço. A vontade de desistir me bate perto do quilômetro vinte. E eu posso, a qualquer hora, desistir, parar em um vilarejo, pegar um ônibus e voltar para casa. Mas não quero. Respiro, concentro minha força nas pernas, arrumo a passada e continuo.

Quando alcanço o quilômetro trinta, o sol já está a pino. A lixeira está vazia. Já não penso mais no passado. Sinto o meu corpo inteiro, o sangue quente circulando pelas veias, as dores, a vontade de chegar e só. Sinto que estou em contato com a vida de um jeito que nunca estive. Eu vivo. Vazio e pronto para ser preenchido por novos papéis. Logo avisto o Pueblo que vou descansar antes de retornar ao Caminho.

Viver é embolar e desembolar papéis.

 

 

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