Essa crônica não é sobre o mercado imobiliário

Aprendi bem cedo a construir casa. Herdei habilidade severa da mãe e do pai. Os dois eram grandes construtores de casas. Na verdade, ainda são. Mas acho que já construíram tantas casas na vida, que decidiram aquietar-se, construir aos poucos, sem aquela pressa da juventude, que constrói casa atrás de casa. É uma casa daqui, outra aculá.

Meus irmãos também aprenderam a construir umas casas como poucos. São casas bem simples, é claro, mas todas muito bonitas e convidativas, a ponto de fazer parar e fazer entrar quem passa na rua e vê as casinhas que eles constroem.

A primeira casa que eu construí foi quando meus pais se separaram. Na verdade, foram duas casas de uma só vez. Nós morávamos em uma casinha, que chamávamos muito mais de amor do que de casa. Daí, quando eu tinha entre quatro e cinco anos, essa casa desmoronou todinha na minha frente. Foi horrível. Voou pedaços da casa pra todos os lados. Me lembro que eu e meus irmãos ficamos um bom tempo soterrados nos escombros, gritando, chorando assustados, até que meu pai e minha mãe nos encontraram. Com alguns arranhões, nos levantamos e eles logo disseram: “vamos reconstruir essa casa”. E foi aí que fizeram logo duas.

Nesse tempo aprendemos que, se a gente quisesse, podia ter mais de uma casa, sim. Na verdade, começamos a aprender que podíamos ter quantas casas quiséssemos ou coubessem na vida. E aí construímos as nossas próprias casas, que ficaram muito grandes e chamativas. Elas tinham chão, teto, quartos, cozinha, banheiros… só não tinham porta de entrada, que era pros nossos convidados entrarem e saírem quando quiserem.

Depois descobrimos que a casa dos nossos avós também eram casa que a gente podia morar quando desse na telha. Não tinha um dia que o vô num ligava pra gente. E enquanto ele falava, a gente morava com ele e também com a vó, que ficava do lado ouvindo e falando na conversa.

E não é que a gente cresceu já sabido de casa… nós fomos crescendo assim, vendo algumas casas caírem, outras subirem. Fomos aprendendo devagar. Uma vez, bem depois que os nossos pais se separaram, a mãe construiu uma casa pequenininha na sua barriga. Era a casa da Gabi. Só que antes da Gabi nascer, metade da casinha rachou e caiu. E a gente ficou lá, olhando praquela casinha, que apesar de estar dentro da nossa casa, bem protegida, estava metade caída. Daí o pai, que tinha uma velocidade grande pra subir casas, refez a metade que estava caída num pulo. Quando a gente viu, a casa estava pronta e mais bonita do que antes. Parece que faltava uma casa assim nos imóveis da família.

Depois veio a casa da Isa, que o pai e a Aline, a esposa do pai, importaram de longe… faltava essa casa estrangeira pra gente aprender que o amor não tem raíz. E aí começaram a surgir muitas outras casas pra gente morar, dos amigos, das namoradas… era tudo casa da gente, mesmo que não vivêssemos nelas.

Só não é nossa casa onde não cabe todo o nosso amor.

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