Não chegar também é um caminho

Existe uma mistura de sentimentos em mim que me incomoda. Hoje, quinta, escrevo essa crônica de Astorga, na Espanha. Estou a duzentos e sessenta quilômetros de distância de Santiago de Compostela, o final da minha jornada de caminhadas nesse país.

São mais de vinte dias caminhando todos os dias, sábados, domingos e feriados. Uma média de vinte e cinco quilômetros por dia, de subidas, descidas, montanhas, estradas, pequenas e grandes cidades, comidas de todos os sabores, muita água, muita gente distinta, de vários cantos do mundo.

Hoje chego a Astorga com a mistura da alegria e do medo. Me recordo das ruas, conheço o albergue, os hospitaleiros são os mesmos do ano passado quando cheguei machucado e, dois dias depois, tive que desistir da caminhada. Por isso chego com medo, porque chego a Astorga com essa memória. Mas também chego feliz porque tenho a segurança de estar fazendo o caminho do melhor jeito que posso.

Eu já caminhei muito mais do que havia caminhado em toda a jornada do ano passado. Até aqui, quinhentos e sessenta quilômetros com muita força nas pernas. O corpo está adaptado. Quase todas as noites me deito com alguma dor. E acordo com outra. Curo uma para receber mais “limpinho” a seguinte. É impossível manter o corpo são o tempo todo por aqui. Por isso digo que me sinto forte. Porque consigo superar essas dores que aparecem. As bolhas no pé, as dor no joelho, na batata da perna, na coxa esquerda, nas costas, a pele queimada, a cabeça… são muitas dolores para cuidar e superar.

Chego a Astorga feliz por toda a experiência que tenho vivido nessas terras. Com meu corpo, com minha mente, mas principalmente com as pessoas e o amor que tenho recebido. Aqui se aprende muito sobre o amor. Não há outra forma de dar e receber amor que não seja de graça. Ninguém tem muito a oferecer em troca do amor, então se dá e se recebe de um jeito muito simples. Quando a saudade aperta, amor. Quando a perna doi, um outro amor, um outro cuidado. Sempre tem alguém pra dar e muitos para receber amores.

Estive mal por cinco dias, a ponto de desistir de continuar, com uma inflamação de garganta que me impedia até de comer. Uma pessoa me deu remédio, outro me deu colo, outro me deu ombro até o hospital. Outro comprou bala para acalmar minha amígdala inflamada… e eu me curei assim, como mágica, só que era amor.

É verdade, eu ainda tenho certo medo de não terminar o Caminho, mesmo estando tão bem. Eu sei que isso pode acontecer da noite pro dia, numa pedra, numa subida, num passeio pela cidade depois da caminhada ou dormindo. Mas tenho tanta felicidade comigo que consigo entender que não chegar também pode ser uma forma de cumprir o meu caminho. Como o fiz ano passado. E estou feliz por compreender isso.

Não chegar é uma oportunidade de amar os que estão no meio.

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