Poetas para quê?

Enquanto escrevo essa minha crônica, que pretende ser sobre a semelhança entre a paquera e a poesia, escuto músicas em modo aleatório. E agora, logo agora que pretendo explicar essa minha tese, começa a tocar uma paquerinha assim: “Não se admire se um dia um beija-flor invadir a porta da sua casa, te der um beijo e partir. Fui eu que mandei o beijo, que é pra matar meu desejo. Faz tempo que eu não te vejo, ai que saudade d’ocê.”. Uma musiquinha tão bonita, que dá vontade de beijar um beija-flor quando ela termina.

Se tem coisa que acho bonita é a paquera. Aquele momento que precede o beijo, e outras coisas, é tão prazeroso quanto o beijo e outras coisas. A troca de olhares, os movimentos do corpo, a aproximação, a primeira palavra, a conversa… se a paquera acontece sem pressa, com cuidado e carinho, pode ser que seja até melhor que o beijo e outras coisas.

A paquera é um momento poético, onde o corpo se expressa como se escolhesse palavras certas para entregar ao outro. Numa boa paquera, a comunicação é toda feita com o corpo. Se algo nesse instante não funciona, se o corpo não conversa bem, se os olhares não se cruzam como deveriam, se as mãos suaves não deslizam delicadamente sobre o cabelo, a paquera míngua. Como na poesia.

Poesias são pequenas paqueras entre o poeta e as palavras. É um flerte entre o ser, o poeta, e o não ser, o verbo. O poeta paquera cada palavra antes de colocá-la no papel, ou no verso. Tem vezes que o poeta tem que paquerar a palavra por dias, meses ou anos para conquistá-la. É que no dia que a palavra não quer, não há charme que faça ela ceder. Se a palavra não quer dar para o poeta, ela não dá. Mas têm dias que sim, que algumas palavras respondem ao flerte com charme, passam as mãos no cabelo (ou nas sílabas), num sinal de que está aberta a um romance (ou à poesia). É quando o poeta se aproxima e beija a palavra. E a palavra já está poesia.

A poesia não é feita só de uma palavra. São várias as palavras que o poeta precisa paquerar e juntar para escrever seus versos. Ele precisa saber flertar e ter muita paciência para construir um poema. Porque o flerte é só o começo da poesia. Quando o poeta consegue angariar palavras, ainda precisa torcer para que elas também se paquerem e se curtam, como nessa poesia de Rupi Kaur: “Eu estaria mentindo se dissesse que você me deixa sem palavras. A verdade é que você deixa minha língua tão fraca, que ela esquece a linguagem que fala.”. Que a poesia só é feita de palavras que se gostam, que se beijam. Se não há namoro entre elas, a poesia também míngua.

A paquera é tão fundamental ao ser humano como a poesia. Ninguém, na verdade, precisa de paquera ou poesia para sobreviver. Mas quando elas acontecem, a sensação é de que sem elas a vida seria muito sem graça. A poesia, assim como a paquera, são fundamentais porque dão graça à vida.

Antes de terminar essa crônica, outra música começa a me paquerar, como se quisesse um beijo e outras coisas: “Depois de ter você, pra que querer saber que horas são? Se é noite ou faz calor… se estamos no verão… se o sol virá ou não… ou pra que é que serve uma canção como essa? Depois de ter você, poetas para quê?”.