Preto no branco e outras cores

Eu não sou preto, nem pobre, nem gay, nem mulher. E toda vez que sofro algum tipo de ofensa, penso: “ainda bem que não sou preto, nem pobre, nem gay, nem mulher”.

Eu não sou preto, mas tenho uma irmã preta. Ela tem vinte anos de idade, é alta, um corpo esculpido num padrão de beleza impecável, o rosto parece desenhado com penas, de tão suave, e os cabelos, alisados até as costas, servem para escorrer os excessos da sua graça. Minha irmã é tão bonita por dentro quanto por fora. Só que é preta. E se tem uma coisa que gente feia não gosta é de gente preta.

Para essas pessoas feias, não existe beleza em “gente de cor”. Se você é preto, você é um monte de coisa, menos bonito. Desde pequena, precisa carregar mais peso que as outras crianças brancas da sua idade. Além de estudar, engole comentários sobre seu cabelo “pixaim”, sua cor que parece “de macaco”, seu “nariz de bolacha”. Não há como competir em igualdade quando você é preto e vive no meio de gente que não tolera a abundância da diversidade. Não são raros os dias que ela nos liga para ouvir elogios, numa forma de compensação das coisas terríveis que escuta. Estuda para o vestibular, mas também faz terapia, briga com o cabelo, tenta consertar sua autoestima, enquanto a pessoa mais feia, o intolerante, estuda.

Ainda bem que não sou mulher e não tenho que escutar todos os dias comentários machistas e ofensas disfarçadas de elogios. E que não preciso comprovar, só porque sou mulher, que sou tão competente quanto meu concorrente homem para concorrer a uma vaga melhor. Ainda bem que não apanho do meu marido, nem sou abusado pelo meu tio, porque sou homem. E tenho sorte de não ter um corpo feminino e não ter que escutar as cantadas ofensivas na rua, só porque sou mulher e vivo num mundo machista.

Se eu fosse pobre, eu teria que conviver com a meritocracia. E ouvir coisas absurdas como “você só é pobre porque é preguiçoso”, quando na verdade, além de correr atrás de comida, ainda preciso cuidar da saúde, porque me falta comida. E me falta comida porque me falta escola, creche, casa, cama… Enquanto pensam que não trabalho porque não quero, eu não trabalho porque no meu bairro de pobre não tem oportunidade (quando moro num bairro). E quando tenho que competir por uma vaga em outro bairro, tenho cara de pobre. E, pra piorar, pode ser que eu seja preto.

Se eu fosse gay, provavelmente, eu já teria morrido, ou apanhado até quase morrer, ou estaria com medo de apanhar de quem não entende o que é orientação sexual, nem respeito, nem diversidade. E não poderia falar sobre orientação sexual no trabalho, porque o ambiente é machista, e teria que escolher com cuidado os lugares pra ir com meu par. E não poderia beijar as pessoas que amo em público. Teria que ouvir piadas homofóbicas e fingir que concordo que o mundo está sem graça, que não se pode mais fazer piada de gay, nem chamar o amigo de veado.

Mas tive sorte. Sou apenas poeta. Muitas vezes confundido com veado, vagabundo ou com um safado, que só quer comer mulheres com a poesia. E toda vez que me sinto um pouco ofendido com os comentários dessa gente feia, me lembro que poderia ser pior. Que eu poderia ser poeta, preto, pobre, gay e mulher.

 

 

Pedras no rio

Desde pequeno, jogava pedras no rio na esperança que elas não afundassem. Daí que um dia, minha mãe me disse que se eu jogasse com amor não afundaria. Então eu joguei, e minha mãe estava certa: por mais pesado que ele seja, o amor não afunda.