No templo que eu inventei

Mesmo que a gente
Não se case na igreja,
Caso o meu amor com o seu
No templo que eu inventei.
Você vai ver que nesse templo
O telhado é de céu.
Eu não inventei esse céu,
Mas inventei o destelhado do templo
Que é pra cobrir você de luar
Na nossa cama de nuvens.
No templo que eu inventei
Eu também não inventei essas nuvens,
Mas inventei esse jeito
De ver você flutuar
Enquanto tenho insônias contigo.
A porta do templo que eu inventei
É de vento.
E já digo: eu não inventei esse vento.
Mas inventei esse jeito
De ver você entrar magnífica
Com seus cabelos ao vento
No templo que eu inventei.
No templo que eu inventei
As paredes e as janelas também são de flores.
E eu não inventei essas flores.
Eu só inventei o jardim,
Que agora fica de dentro do templo,
Que é pra você viver
E contemplar o jardim
Ao mesmo tempo,
No templo que eu inventei.
Por fim, no templo que eu inventei
A gente não precisa jurar nosso amor
Perante um padre.
A gente só precisa gastar
Todo o nosso amor
Perene
E a dois
No templo que eu inventei.

Eu já paguei uma mulher só pra sentir saudade

Nós combinamos a hora e o local pelo whatsapp. Era terça, um dia pouco provável para um encontro, mas era o dia que ela podia. Sua agenda sempre cheia não me permitia reclamar.

Cheguei ao local quinze minutos antes do combinado. Entrei por uma porta de metal e aguardei por alguns minutos numa antessala. Pontualmente, fui chamado por ela, a mulher: morena alta, cabelos ondulados, com vestido que marcava com elegância sua cintura e quadril. Usava um salto não tão alto, mas suficiente para elevar sua classe. Atravessamos um corredor de portas, até chegarmos a uma que estava entreaberta. Ela me convida a entrar. Deparo-me com um espaço limpo, cheio de móveis e objetos decorativos. Uma escrivaninha, duas poltronas e um tapete compõem o local. Ela espera que eu me decida… sento-me na poltrona à direita. Devagar, ela se senta na outra poltrona.

Enquanto observo o local, ela acompanha meu olhar:

– Tudo bem? – Me pergunta.

– Sim. Só um pouco tímido. Como sempre.

– Dá pra notar. – Completa.

Um pequeno silêncio fica entre nós. Ela prossegue:

– Você se lembra de algum episódio na infância que tenha te deixado assim, tímido?

Penso um pouco antes de responder:

– Não. Um episódio não. Só me lembro que eu tinha dificuldades pra conversar com meninas…

– Na infância isso é muito normal. Mas como era sua relação com seus irmãos?

– Eu tive uma infância muito feliz. Éramos três irmãos. O gêmeo era o meu melhor amigo. Enquanto estávamos juntos, sentia que não precisava de muitos amigos. Quando juntávamos os três então, já éramos muitos.

Ela me olha, respira e continua:

– Dá pra ver que você se lembra com felicidade da sua infância. E com seus pais? Eu sei que eles se separaram quando você era muito pequeno. Como foi a separação pra você?

– Eles sempre nos deram amor. Juntos e separados. Então eu acho que foi normal. Foi triste quando se separaram, mas eles sempre foram francos. E nunca nos abandonaram. Moramos com a mãe, mas o pai sempre esteve com a gente.

– Como era a relação com sua mãe?

Uma pausa. De repente choro. Respiro. E continuo:

– Até eu crescer, sempre achei minha mãe muito dura. Hoje eu agradeço por cada dureza. Ela que cuidava do dia-a-dia de nós três. E depois da Gabi. Era difícil. Mas ela se dedicava bastante pra gente não sair da “linha”. Trabalhava demais e ainda tinha tempo e disposição pra nos educar e corrigir. Hoje eu olho com muita gratidão pelo que minha mãe fez por nós. E ainda faz.

– Que bonito! Eu conheço sua mãe. Ela é isso mesmo… E seu pai?

– Meu pai era a o amor e a diversão. Passávamos as férias inteiras brincando na sua casa. Comíamos o que a mãe não deixava. Jogávamos videogame até tarde. A mãe era o ano letivo. O pai era as férias. – Brinco.

Ficamos por quase uma hora nesse meu passado. Lembrei dos avós, do quintal da Jovita, do pé de morango, da família da mãe, da outra vó e do vô. Do amor que a gente se deu. E chorei como não havia chorado há anos. Chorei como uma criança… Quando vi, a terapia já havia terminado.

– Hoje eu quis gastar nosso tempo com a sua memória. Pra você se conectar com o Lucas que você era.

– Entendo… Então hoje eu te paguei só para sentir saudade. – Brinquei entre um riso e um choro. – Obrigado!

Embolo

Hoje eu não vou escrever sobre amor. Vou trocar a palavra amor por bolo. E ao invés de dizer que te amo, eu te bolo até explodir. Mas a verdade é que eu te tanto que eu me embolo todo.