Eu já paguei uma mulher só pra sentir saudade

Nós combinamos a hora e o local pelo whatsapp. Era terça, um dia pouco provável para um encontro, mas era o dia que ela podia. Sua agenda sempre cheia não me permitia reclamar.

Cheguei ao local quinze minutos antes do combinado. Entrei por uma porta de metal e aguardei por alguns minutos numa antessala. Pontualmente, fui chamado por ela, a mulher: morena alta, cabelos ondulados, com vestido que marcava com elegância sua cintura e quadril. Usava um salto não tão alto, mas suficiente para elevar sua classe. Atravessamos um corredor de portas, até chegarmos a uma que estava entreaberta. Ela me convida a entrar. Deparo-me com um espaço limpo, cheio de móveis e objetos decorativos. Uma escrivaninha, duas poltronas e um tapete compõem o local. Ela espera que eu me decida… sento-me na poltrona à direita. Devagar, ela se senta na outra poltrona.

Enquanto observo o local, ela acompanha meu olhar:

– Tudo bem? – Me pergunta.

– Sim. Só um pouco tímido. Como sempre.

– Dá pra notar. – Completa.

Um pequeno silêncio fica entre nós. Ela prossegue:

– Você se lembra de algum episódio na infância que tenha te deixado assim, tímido?

Penso um pouco antes de responder:

– Não. Um episódio não. Só me lembro que eu tinha dificuldades pra conversar com meninas…

– Na infância isso é muito normal. Mas como era sua relação com seus irmãos?

– Eu tive uma infância muito feliz. Éramos três irmãos. O gêmeo era o meu melhor amigo. Enquanto estávamos juntos, sentia que não precisava de muitos amigos. Quando juntávamos os três então, já éramos muitos.

Ela me olha, respira e continua:

– Dá pra ver que você se lembra com felicidade da sua infância. E com seus pais? Eu sei que eles se separaram quando você era muito pequeno. Como foi a separação pra você?

– Eles sempre nos deram amor. Juntos e separados. Então eu acho que foi normal. Foi triste quando se separaram, mas eles sempre foram francos. E nunca nos abandonaram. Moramos com a mãe, mas o pai sempre esteve com a gente.

– Como era a relação com sua mãe?

Uma pausa. De repente choro. Respiro. E continuo:

– Até eu crescer, sempre achei minha mãe muito dura. Hoje eu agradeço por cada dureza. Ela que cuidava do dia-a-dia de nós três. E depois da Gabi. Era difícil. Mas ela se dedicava bastante pra gente não sair da “linha”. Trabalhava demais e ainda tinha tempo e disposição pra nos educar e corrigir. Hoje eu olho com muita gratidão pelo que minha mãe fez por nós. E ainda faz.

– Que bonito! Eu conheço sua mãe. Ela é isso mesmo… E seu pai?

– Meu pai era a o amor e a diversão. Passávamos as férias inteiras brincando na sua casa. Comíamos o que a mãe não deixava. Jogávamos videogame até tarde. A mãe era o ano letivo. O pai era as férias. – Brinco.

Ficamos por quase uma hora nesse meu passado. Lembrei dos avós, do quintal da Jovita, do pé de morango, da família da mãe, da outra vó e do vô. Do amor que a gente se deu. E chorei como não havia chorado há anos. Chorei como uma criança… Quando vi, a terapia já havia terminado.

– Hoje eu quis gastar nosso tempo com a sua memória. Pra você se conectar com o Lucas que você era.

– Entendo… Então hoje eu te paguei só para sentir saudade. – Brinquei entre um riso e um choro. – Obrigado!

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