Descaminho

Eu já fiz o Caminho de Santiago de Compostela duas vezes. A primeira vez foi em 2016, quando fiz a metade da caminhada. Foram quatrocentos e oitenta quilômetros, de Burgos a Santiago, num desafio quase brutal ao meu corpo. Tive muita dificuldade física, mas também tive ansiedade e medo. Senti dores, me machuquei, me cansei, chorei como uma criança e senti muita saudade, coisas que me impediram de chegar à pé ao destino final, Santiago. Mas cheguei. Fiz de ônibus os últimos cem quilômetros e só compreendi que, ainda assim, esse foi o meu Caminho, algum tempo depois.

Esse ano, 2017, voltei ao Caminho mais preparado, pronto para fazê-lo de ponta a ponta, da França ao outro lado da Espanha, a cidade de Santiago de Compostela. Foram oitocentos e vinte quilômetros de muitos passos dados, agora com mais calma e maturidade. Trinta e um dias que pareceram um ano.

E mesmo com toda a experiência, o Caminho foi tão surpreendente quanto imprevisível. O Caminho é um lugar de surpresas. E ao abrir meu diário desse ano, na primeira página, a surpresa foi essa:

Quem planeja demais o Caminho, não faz o Caminho. Talvez cumpra um objetivo, mas não se entrega ao que ele tem de mais bonito: as surpresas.

Meu Caminho estava todo planejado. Gastei semanas me organizando, traçando rotas, vendo as melhores opções para chegar à França e começar minha jornada. Em vão. Ao chegar à Madrid, perdi a conexão que me levaria à Pamplona e me desesperei.

A bagagem que despachei com os itens proibidos, como líquidos, bastões e cortantes, demorou a aparecer na esteira de Madrid. Por isso, perdi a conexão que me levaria a Pamplona, a cidade que ia dormir essa noite, antes de chegar à França.

Gastei uma hora de lamentação no aeroporto de Barajas, pensando no prejuízo com o hotel que já havia reservado em Pamplona e na passagem do dia seguinte para a França. Quando parei de chorar e decidi resolver meu primeiro desafio na Espanha, gastei cinco minutos para reservar minha nova hospedagem em Madrid e remarcar as passagens para a França. E a minha chegada ao começo do Caminho não foi alterada em nenhum minuto.

Descaminho é o Caminho contrário ao que foi planejado. É o Caminho como ele é, com as surpresas que só quem decide fazê-lo começa a vivê-las, mesmo antes de iniciar a jornada.

Descaminho é deixar que o Caminho planeje por você. É se abrir às surpresas, boas ou ruins, como as surpresas da vida. São elas que irão, de algum jeito, tirá-lo do lugar que você está e colocá-lo onde você nunca esteve.

O Caminho é como esse diário, que começa com uma caligrafia legível e termina com outra que eu mal consigo entender. Uma letra que se modifica, ora pelo cansaço, ora pelo amadurecimento da própria escrita (ou de si mesmo?). Eu preciso de tempo para entender essa minha nova letra.

Fazer o Caminho é descaminhar uma vida. Caminhar rumo ao desconhecido. Eu perdi minha conexão, ganhei um dia de descanso maior em Madrid e uma nova chance de começar minha jornada, agora sem esperar que nada aconteça.

Porque, no Caminho, tudo que acontece, inclusive o que não acontece, é um grande acontecimento. Tudo é descaminho.