Debaixo daquele rio existe um outro rio

Debaixo daquele rio existe um outro rio. Foi isso que os pesquisadores descobriram quando mergulharam mais fundo nas águas do Rio Amazonas.

Quando meu amigo de Macapá me contou essa história eu chorei. Foi como se existisse um rio debaixo de mim pronto para desaguar. Eu estava de frente para o maior rio do mundo quando vi o quão raso enxergamos a vida. Ver aquele volume de rio na superfície é assustador de bonito. Imaginar que debaixo daquelas águas existe um rio maior que o Rio São Francisco é emocionante. Um rio tão rio que tem até nome, Hamza, em homenagem ao pesquisador que o descobriu.

Que injustiça é essa da natureza de esconder tanta água debaixo do Amazonas? A história do Hamza me fez pensar sobre a história da vida, sobre as coisas bonitas que não enxergamos porque vivem embaixo de outros rios. “Você precisa aprender a enxergar as belezas dos rios que estão submersos”, me disse o rio.

Eu já fiz o Caminho de Compostela duas vezes. E uma das coisas que o peregrino aprende é a olhar a beleza escondida nas profundezas da vida. Na primeira vez que atravessei as mesetas, o deserto espanhol, foi difícil enxergar a beleza daquele lugar. O calor e o cansaço roubam qualquer cena bonita ao redor. Na segunda vez que varei o deserto aprendi a ter calma para enxergar a vida daquela região. Aprendi a encontrar o rio debaixo do rio.

A seca é a casa de muita vida. A natureza não só sobrevive, como também depende do calor para completar seu ciclo. Por fora das plantas, o árido. Por dentro, depósitos de água preservam a existência até a próxima estação. É como se, para sobreviver, as plantas tivessem que cultivar seus próprios rios. Existe um rio debaixo daquela aridez. E esse rio não é feito só de água.

Existe amor debaixo dos amores que vivemos, embaixo das nossas superfícies. Nós aprendemos a amar e desamar como um rio pequeno que, quase sempre, seca em estações que não chovem. Um rio que deixa a gente sem água até para matar nossa sede. Morremos porque não sabemos banhar nas nossas águas mais profundas, nos nossos outros amores. O amor é um rio que vive debaixo de outro rio, tão grande e bonito como o rio da superfície.

A poesia é um rio que vive debaixo de outro rio. Quando descobriram o rio de palavras escondidas debaixo de outras palavras, deram o nome de poesia. O que está na superfície são as águas mais óbvias, de um curso só. No rio da poesia, além de profundas, as águas têm vários cursos, sobe montanhas, inunda sequidões, desacorrenta pensamentos.

Debaixo daquele rio existe um outro rio. Foi isso que os pesquisadores descobriram quando mergulharam mais fundo nas águas doces do norte. Eu também já mergulhei fundo nas minhas águas quando tentei encontrar um norte. E descobri que debaixo de um amor existe um outro amor, tão grande quanto um rio, tão doce quanto as águas do rio mais doce. De cima da superfície é difícil enxergar o amor das profundezas. A gente passa uma vida nadando no raso das nossas águas sem saber que há um oceano debaixo da gente pra se banhar. Quando eu descobri o meu rio debaixo do outro rio, aprendi que quando a gente navega sobre nossos amores, ficar à deriva é ficar sobre o doce de todas as nossas águas.

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