Sem surpresa não há vida

Acredito que não há coisa mais importante para a vida que a nossa capacidade de nos surpreendermos. Sem a surpresa, o espanto, seríamos como robôs, perfeitos e sem graça. A surpresa é o que nos faz improvisar, mudar o caminho, emocionar, rir, chorar.

Não me canso de usar o Caminho de Compostela nessa coluna para falar da vida. E uma das experiências que tive quando cruzei a Espanha a pé, teve a ver com a surpresa, o espanto.

Por já ter feito o Caminho uma vez, imaginei que a minha segunda peregrinação seria mais previsível. Engano. No meu terceiro dia, eu já estava espantado:

“Por mais que conheça o Caminho, ele sempre me surpreende. E uma das experiências de hoje me fez entender que a vida só tem graça por conta das surpresas.

Hoje comecei minha caminhada sozinho. Estava escuro, um pouco frio e meu corpo, já na primeira hora, gritava de dor. Na ânsia de sair rápido do albergue, não comi. Deixei para me alimentar na próxima cidade, a cinco quilômetros de Zubiri, mas esqueci que era domingo e que tudo estaria fechado. “O domingo é mais sagrado na Espanha que no Brasil”, pensei quando cheguei na cidade e não encontrei um café. Eu estava faminto.

Um bom peregrino sempre carrega consigo um pouco de comida, frutas ou pães. Eu confiei no previsível, de tomar um café na cidade, mas não me preparei para as surpresas. E foi um dia de muitas surpresas. Todos os cafés que encontrei estavam fechados.

Caminhei por mais duas horas sem nada, com pouca energia no corpo. Moisés, um amigo espanhol, me encontrou nesse trecho e seguimos juntos. Sua companhia me ajudou a tirar um pouco o foco da fome. Conversamos bastante e, quando menos esperava, um oásis surgiu à minha frente. Uma cafeteria perdida, no meio da trilha, repleta de comida. O lugar estava cheio de peregrinos, possivelmente como eu, famintos. Enchi uma bandeja com café, pães, bocadilhos, suco e croissant. Tudo estava surpreendentemente divino.

Depois de comer, seguimos o Caminho. Encontramos outros amigos e, duas horas depois, avistamos Pamplona, nosso destino do dia. Era uma hora da tarde quando o verde da cidade encharcou nossos olhos. Atravessamos ruas, subimos ladeiras e cortamos parques até encontrar o albergue municipal, que ficava no centro da parte histórica de Pamplona.

Como de costume, arrumamos as camas, tomamos um banho, lavamos as roupas e saímos para almoçar. Foi uma tarde saborosa. Depois voltamos ao albergue, descansamos e retornamos às ruas à noite para um jantar maior, um encontro de gente de vários cantos do mundo. Amigos italianos que havia conhecido no segundo dia me ligaram, se juntaram ao nosso grupo e deixaram a noite mais surpreendente.

E o dia, que estava tão duro, foi amolecendo aos poucos. A fome já não era mais de comida, mas de momentos como esses em Pamplona. Parece que quanto mais duro é o Caminho, mais amor e carinho nos damos.

Os dias têm se mostrado assim, muito duros, porém muito mais ternos. O Caminho é cheio de surpresas, que ora machucam, ora te beijam.”

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