Um poema não cura uma vida, mas cura a feiura do mundo

Caminho pela vida como quem entra numa livraria atrás de livros: procuro devagar um que me agrade, observo as capas, leio os títulos, me encanto com os clássicos, descubro novos escritores.

Ando sem pressa e, primeiro, meu olhar está em busca de uma capa interessante. Procuro algo que provoque algum desejo em mim, que movimente meus olhos em sua direção. Capas bonitas me interessam. Apesar de não julgar um livro pela capa, uma boa capa é um bom jeito de começar a julgar um livro.

Capas são as primeiras manifestações artísticas de um exemplar e, como arte, a beleza não está na perfeição, mas na surpresa que as imperfeições me provocam. Pessoas também são bonitas assim, nas suas imperfeições. Pessoas perfeitas são tão interessantes como as capas da enciclopédia Barsa. Um bom livro é aquele que a gente lê, relê e mesmo quando fica guardado, toda vez que a gente olha na estante se apaixona de novo.

Passo aos títulos. Ele me conquistam fácil. Não me lembro de um livro com o título bom que tenha me decepcionado. Um dos primeiros livros que li quando redescobri a leitura na minha vida se chama “Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei”. Um título tão fotográfico que eu consigo imaginar o cenário da história a partir dele. E consigo me ver chorando esse rio. Títulos podem fazer uma obra mediana valer a pena.

Avanço às sinopses, que normalmente ficam nos versos dos livros. Se tem “aclamado pela crítica” ou “recomendado pelo The New York Times” devolvo. Não levo um best-seller pra cama. Nada contra, é que prefiro os livros ainda não lidos que os já lidos por quase todos. A busca é por tesouros escondidos na livraria. Por pessoas que ainda não foram descobertas.

Com as pontas dos dedos faço outra seleção, leio trechos do miolo, investigo se a escrita é boa, se flui. Por exemplo, quando leio os contos do Luis Fernando Veríssimo nem penso em livro. É como se eu estivesse dentro desse conto. Escolho um personagem pra ser e atuo. E quando vejo, estou rindo sozinho com um livro na mão. Apesar de que, com um livro na mão, ninguém está só.

A caminhada termina na seção que mais gosto: da poesia. Se pudesse levava todas para casa. A poesia tem esse charme que outros livros não têm, o seu descompromisso com o que diz. Poesia só diz. E eu leio e releio versos como se tivesse lido dois versos completamente diferentes. A poesia tem isso, ela é bipolar. Ora sim, ora não, mas sempre bela, bonita. Nunca feia. Até a poesia feia é bonita.

Pago pela poesia, seguro ela na mão, levo pra casa, tomo o meu banho enquanto ela me espera na sala. Depois me sento e a devoro até o sono chegar. Antes de dormir, a poesia ainda me beija e me cobre de amor com versos como os de Adélia Prado no livro Bagagem: “Uma ocasião, meu pai pintou a casa toda de alaranjado brilhante. Por muito tempo moramos numa casa, como ele mesmo dizia, constantemente amanhecendo.”.

Pessoas são livros. Algumas são ruins, bem difíceis de ler, outras são tão boas que nunca terminam, como se fossem poesia.

“Poesia não é remédio. É produto de beleza. Um poema não cura uma vida, mas cura a feiura do mundo.”.

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