Pipoca

O auditório enorme está lotado de gente pequena. São crianças miúdas, que mal aprenderam a falar e já gritam como se fossem passarinhos em revoada.

O apresentador pede silêncio e é prontamente desatendido pelas avezinhas. Mesmo assim continua a apresentação anunciando o encontro em comemoração ao Dia do Livro. Passadas as formalidades, com as crianças mais calmas, o mestre de cerimônias começa a chamar os convidados que irão compor a mesa.

O primeiro anunciado sou eu, o mais novo, recebido com muita alegria pela turma. A segunda é outra escritora da terra, Sandra Rosa, um pouco mais velha, especialista em literatura infanto-juvenil, é carinhosamente abraçada pelo auditório. Por último, o mais velho de todos é chamado. Um escritor consagrado, grisalho, tipo franzino e de jeito bem tímido de caminhar. Quando seu nome é anunciado, é como se entrasse no estádio o Pelé. A torcida vibra bastante. Gabriel Nascente está em campo com a simplicidade de um menino que chega para jogar uma pelada no campinho de terra do bairro. Mas ele sabe que está num estádio lotado e conhece o cenário, não se amedronta. Agradece com os olhos lubrificados de amor enquanto se senta entre mim e Sandra. Nos cumprimentamos. Eu também não consigo esconder a euforia.

Com pressa para que o debate comece já, o apresentador apazigua os miudinhos depois de muito “shhhh” e “chega!”. Silêncio no auditório.

A primeira pergunta vem da turminha, é difícil. Voa da boca de um dos miúdos da plateia e cai como pluma no colo de Gabriel Nascente: “Como que eu faço para aprender a gostar de ler?”. Gabriel fica um pouco em silêncio antes de começar a resposta com um grito: “Pipoca!”. O estádio gargalha com a palavra que surge inesperada da boca do poeta: “Que pergunta boa, pipoca!”, emenda Gabriel, que não tem pressa para responder. Usa os respiros entre as frases para pensar e só depois continuar: “Eu queria detonar a bomba atômica com o meu estilingue, pipoca!”. E o bando de andorinhas quase chora de tanto rir.

Agora é o próprio Gabriel que apazigua os ânimos da turma: “Minhas andorinhas, minhas andorinhas… É tão bonito ouvir seus cantos. Mas agora me escutem…”, e o poeta, com seu jeitinho calmo, de gente que veio de outros cantos que não da cidade, conta da sua vida simples, de quando morava na roça, rodeado por um mundo de verde que tanto o inspirou a compor os seus versos: “Nós precisamos acabar com esse mal que é a tecnologia. Antes que o mal acabe com a gente… Pipoca!”. Mais risos. “E precisamos voltar a construir natureza, antes que ela nos expulse daqui”. Agora a turma o observa em silêncio, muito atenta, como se esperasse o final da piada, o gol do Pelé. Então, como se soubesse domar andorinhas, Gabriel olha nos olhos de cada miudinho, respira bem fundo e fala bem manso: “Pipoca!”. E não há um que se aguente sem rir. Eu e Sandra não queremos mais falar, só ouvi-lo.

Gabriel é um livro para ser lido com os ouvidos bem atentos. Não há palavra dita sem antes vir o pensamento. É uma nascente que não para de jorrar poesia.

Antes de chegar a nossa vez, o poetinha ainda arremata: “Eu não sabia que andorinhas riam tanto… … … Pipoca!”.

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