Camarim

A gente finge
que sabe amar,
mas não sabe.
E ama como se encenasse
peças de teatro
e se declama
como se o “eu te amo”
fosse a única fala dessas peças.
Mas o amor não é isso.
O amor é o abraço
que a gente se dá no camarim
depois que a peça termina
e quase ninguém vê.

 

 

Um poeta com pressa é o primeiro a não chegar

É preciso ter calma para fazer poesia. Um poeta com pressa é o primeiro a não chegar. Um escritor apressado atropela as palavras e bate de frente com o óbvio, com o que já foi dito.

Poesias são palavras que tropeçam nas mãos dos poetas e vão girando lentamente, até caírem num papel como se fossem folhas secas de um outono bem bonito.

A poesia é o outono das palavras.

Ao contrário dos outros ofícios que trabalham com a escrita, o poeta é o escritor que tem a sabedoria de esperar… mas não confunda espera com preguiça. Essa calma é fruto da malícia de quem sabe que poesia é um encontro de palavras, e que esse encontro leva tempo, como um namoro à moda antiga, em que o rapaz devia xavecar sua pretendente por dias, meses, anos… E muitas vezes esse possível namoro nem acontecia. A poesia não tem pressa para acontecer e quase nunca acontece de repente.

O poeta é o escritor que sabe que a espera é importante para que as palavras cheguem e se acomodem. É por isso que o poeta é visto como um tipo manso, preguiçoso… mas não é. É um exímio conhecedor do tempo das palavras. Uma palavra leva tempo pra se despir. Poesia também é isso, um strip-tease lento e sensual da palavra.

E o poeta espera…. Porque o tempo da poesia só depende da vontade da palavra de chegar e se despir. E a única certeza que o poeta tem é que um dia elas chegam e se revelam.

Tem vezes que as palavras vêm aos montes, como se fossem boiadas, atropelando tudo, atravessando rios… cenas das mais bonitas. E o poeta observa as palavras, como um boiadeiro no meio da boiada à espera do boi fugido. O poeta espera o vacilo, o erro, o descuido, o gado travesso… a palavra foragida. São elas que o poeta caça, e vai laçando uma a uma, até encher o curral de poesia. E a boiada de palavras segue. E a poesia fica.

Tem vezes que as palavras não vêm. E o que resta ao poeta é esperar. E ele espera, pois sabe que não adianta procurar pelas palavras quando elas não querem vir. E o poeta espera, aproveita a sombra de uma árvore bem verde no meio do pasto seco. Às vezes até cochila dentro da espera e fica ali por dias, até que escuta de longe a boiada chegar. O chão treme, a poeira sobe. Lá vem chegando a poesia.

A espera é bonita. E o poeta que sabe esperar a travessia das palavras, pega os versos mais sublimes. Quantos bois tiveram que passar para que Adélia Prado escrevesse:

“Uma ocasião, meu pai pintou a casa toda de alaranjado brilhante. Por muito tempo moramos numa casa, como ele mesmo dizia, constantemente amanhecendo.”

Quando dizem que a poesia é ingênua, como coisas que crianças fazem, querem dizer que a poesia não precisa ser importante. A poesia dá desimportância aos fatos, para nos tirar o riso das coisas mais bobas. Poesia não tem lição de moral. A poesia é imoral, de tão boba e bela que é.

“Ameixas. Ame-as ou deixe-as” de Paulo Leminski é de uma desimportância imensa. É como se a palavra tivesse alucinado, de tão despretensiosa que chega. Aliás, poesia também é isso, alucinação.

A poesia é o hospício da palavra. Quando a palavra alucina é na poesia que ela se interna. E não há cura. Uma palavra internada na poesia é uma palavra que se salva da sanidade do mundo.

Hoje choveu onde você não estava

Hoje choveu
onde você não estava.
Choveu em Paris,
em Amã, na Jordânia,
e também choveu em mim.
Quando chove em Paris,
os turistas que gostam bastante.
Dizem que a cidade fica mais bonita.
Eu acho que é coisa de cinema,
de gente que ama filmes românticos,
que gosta de imaginar as coisas, os amores.
Coisa de gente que só ama assim,
cinematograficamente,
numa cena clichê:
um beijo molhado em Paris.
Em Amã, só faz sol,
mas choveu.
E eu só soube que hoje choveu em Amã
quando te procurei por aí
e não te encontrei nem por lá.
Choveu em Amã e quase ninguém soube.
Em mim já faz dias que chove
e não para.
A notícia que deu no jornal
é que aqui, na cidade que eu moro,
a seca é imensa.
Eu fiquei rindo do jornal
falando em seca
enquanto a chuva não para de cair em mim.
Talvez essa seja a melhor definição de seca:
sem você,
dentro de mim,
nesse ser tão seco e triste,
só chove.

É amor quando ainda não é

É amor
quando ainda não é.
A gente ainda não se tocou
nem beijou
nem nos demos abraços.
Carícias, nenhuma.
Nem as flechas dos anjos do amor
nos rasgaram o peito pra gente se amar…
E é amor
quando ainda não é.
Hoje, não acordamos juntos
porque não dormimos juntos…
Por que?
O café da manhã
ficou para outra manhã.
Você de cabelos despenteados
me bagunça bem mais
que uma noite inteira de amor,
eu sonhei.
Sinto o cheiro do seu lençol
no meu corpo,
é cheiro de amor.
E é amor
quando ainda não é.
Nos cruzamos na rua
num dia qualquer
sem saber que cruzamos
a vida um do outro nesse dia.
Seria o fim de um dia qualquer.
Eu já me vesti pra te ver,
mesmo sabendo que não,
eu não ia te ver.
Seus cabelos, eu só imagino,
às vezes encaracolados,
às vezes lisos, escuros ou claros…
E claro, eu não te conheço
mas isso também não importa.
É amor
quando ainda não é.
E enquanto não for,
nosso amor é ao menos poema.
E poema é um tipo de amor
que, se ainda não é,
agorinha vai ser.