Hoje choveu onde você não estava

Hoje choveu
onde você não estava.
Choveu em Paris,
em Amã, na Jordânia,
e também choveu em mim.
Quando chove em Paris,
os turistas que gostam bastante.
Dizem que a cidade fica mais bonita.
Eu acho que é coisa de cinema,
de gente que ama filmes românticos,
que gosta de imaginar as coisas, os amores.
Coisa de gente que só ama assim,
cinematograficamente,
numa cena clichê:
um beijo molhado em Paris.
Em Amã, só faz sol,
mas choveu.
E eu só soube que hoje choveu em Amã
quando te procurei por aí
e não te encontrei nem por lá.
Choveu em Amã e quase ninguém soube.
Em mim já faz dias que chove
e não para.
A notícia que deu no jornal
é que aqui, na cidade que eu moro,
a seca é imensa.
Eu fiquei rindo do jornal
falando em seca
enquanto a chuva não para de cair em mim.
Talvez essa seja a melhor definição de seca:
sem você,
dentro de mim,
nesse ser tão seco e triste,
só chove.

É amor quando ainda não é

É amor
quando ainda não é.
A gente ainda não se tocou
nem beijou
nem nos demos abraços.
Carícias, nenhuma.
Nem as flechas dos anjos do amor
nos rasgaram o peito pra gente se amar…
E é amor
quando ainda não é.
Hoje, não acordamos juntos
porque não dormimos juntos…
Por que?
O café da manhã
ficou para outra manhã.
Você de cabelos despenteados
me bagunça bem mais
que uma noite inteira de amor,
eu sonhei.
Sinto o cheiro do seu lençol
no meu corpo,
é cheiro de amor.
E é amor
quando ainda não é.
Nos cruzamos na rua
num dia qualquer
sem saber que cruzamos
a vida um do outro nesse dia.
Seria o fim de um dia qualquer.
Eu já me vesti pra te ver,
mesmo sabendo que não,
eu não ia te ver.
Seus cabelos, eu só imagino,
às vezes encaracolados,
às vezes lisos, escuros ou claros…
E claro, eu não te conheço
mas isso também não importa.
É amor
quando ainda não é.
E enquanto não for,
nosso amor é ao menos poema.
E poema é um tipo de amor
que, se ainda não é,
agorinha vai ser.

 

Eu te poesio

“O povo não gosta de poesia”, muita gente diz. Mas acontece que muita gente é muita gente. E essa gente, que nem sabe o que é poesia, também não sabe que os versos estão para o povo assim como as mães estão para os filhos.

O amor é filho da poesia. Não existe um sentimento chamado amor. O que existe é uma declaração quase universal chamada “Eu Te Amo”, que é muito bonita, inventada por um poeta e, por isso, tão confusa. Quando uma pessoa diz que ama, a gente nunca sabe muito bem o que ela quer dizer.

Algumas pessoas acham que quem diz que ama está obrigado à pessoa amada. Preso e condicionado a passar uma vida inteira ao seu lado. Uma interpretação horrível, mas possível de ser feita, pois amor é poesia e quase ninguém gosta de ler poesia (é o que muita gente diz). Então quase ninguém entende. Muitas vezes é assim que acontece, a poesia mais confunde que esclarece.

Outras pessoas, mais vividas de amor e de poesias, entendem que se declarar é se libertar. Quando dizem “eu te amo”, na verdade querem dizer que “eu me amo tanto que até transbordo e, por isso, eu te dou um pouco desse meu amor”. Aprendem que amar é libertar os beija-flores que vivem na gente.

Por estar tão desgastada é que os poetas brincam de reinventar e dar outras “caras” para a expressão “eu te amo”. Isso faz com que o amor, essa declaração universal, nunca morra.

Jorge Rosa, compositor português, escreveu um fado que é uma declaração de amor que, de tão bonita, voa: “Escrevi teu nome no vento, convencido que o escrevia na folha dum esquecimento, que no vento se perdia (…) Pobre de mim, não pensava que, tal e qual como eu, o vento se apaixonava por esse nome que é teu (…) Quero esquecer-te, acredita. Mas cada vez há mais vento”. Essa música é uma espécie de “eu te amo”, só que em poesia.

Se muita gente diz que o povo não gosta de poesia, mas muita gente gosta de dizer que ama, então de duas uma: ou é mentira que o povo não gosta de poesia, ou muita gente anda mentindo sobre o amor.

Amanhã é Dia das Mães, o dia oficial do amor. Se existe um dia para que as declarações amorosas sejam feitas, esse dia é amanhã. Não há como mentir sobre o amor que um filho sente por sua mãe, um dos mais bonitos que existem. A poesia está recheada de versos de amor, que foram feitos para elas, os amores de todos nós.

Matilde Campilho, poeta contemporânea, portuguesa, pensando no que é o amor, disse que “então acho que o amor é o contrário do fim”. E me pego pensando no amor que sinto pela minha mãe. Sem querer, respondo alto que “sim, eu te amo infinitamente, desde o começo”.

“O amor é quando a gente mora um no outro”, disse Mário Quintana, e eu só penso que sempre que “a casa cai”, ainda tenho casa pra morar. E ela não é de concreto, é de amor e poesia. É casa de mãe.

E, mãe, se você leu essa crônica até o fim, agora você sabe que ela não é só uma crônica. É uma jeito que eu dei de você ficar sabendo o quanto eu te amo em cada poesia que faço sobre o amor. Um crônica pra ser lida em um jornal por outras mães, mas que no fim é pra você, como esses versos: “Te amo como se fizesse um poema bem bonito, apesar de não saber fazer. Mas sei que amar é tão bonito quanto um poeta diz não saber”.