Eu te poesio

“O povo não gosta de poesia”, muita gente diz. Mas acontece que muita gente é muita gente. E essa gente, que nem sabe o que é poesia, também não sabe que os versos estão para o povo assim como as mães estão para os filhos.

O amor é filho da poesia. Não existe um sentimento chamado amor. O que existe é uma declaração quase universal chamada “Eu Te Amo”, que é muito bonita, inventada por um poeta e, por isso, tão confusa. Quando uma pessoa diz que ama, a gente nunca sabe muito bem o que ela quer dizer.

Algumas pessoas acham que quem diz que ama está obrigado à pessoa amada. Preso e condicionado a passar uma vida inteira ao seu lado. Uma interpretação horrível, mas possível de ser feita, pois amor é poesia e quase ninguém gosta de ler poesia (é o que muita gente diz). Então quase ninguém entende. Muitas vezes é assim que acontece, a poesia mais confunde que esclarece.

Outras pessoas, mais vividas de amor e de poesias, entendem que se declarar é se libertar. Quando dizem “eu te amo”, na verdade querem dizer que “eu me amo tanto que até transbordo e, por isso, eu te dou um pouco desse meu amor”. Aprendem que amar é libertar os beija-flores que vivem na gente.

Por estar tão desgastada é que os poetas brincam de reinventar e dar outras “caras” para a expressão “eu te amo”. Isso faz com que o amor, essa declaração universal, nunca morra.

Jorge Rosa, compositor português, escreveu um fado que é uma declaração de amor que, de tão bonita, voa: “Escrevi teu nome no vento, convencido que o escrevia na folha dum esquecimento, que no vento se perdia (…) Pobre de mim, não pensava que, tal e qual como eu, o vento se apaixonava por esse nome que é teu (…) Quero esquecer-te, acredita. Mas cada vez há mais vento”. Essa música é uma espécie de “eu te amo”, só que em poesia.

Se muita gente diz que o povo não gosta de poesia, mas muita gente gosta de dizer que ama, então de duas uma: ou é mentira que o povo não gosta de poesia, ou muita gente anda mentindo sobre o amor.

Amanhã é Dia das Mães, o dia oficial do amor. Se existe um dia para que as declarações amorosas sejam feitas, esse dia é amanhã. Não há como mentir sobre o amor que um filho sente por sua mãe, um dos mais bonitos que existem. A poesia está recheada de versos de amor, que foram feitos para elas, os amores de todos nós.

Matilde Campilho, poeta contemporânea, portuguesa, pensando no que é o amor, disse que “então acho que o amor é o contrário do fim”. E me pego pensando no amor que sinto pela minha mãe. Sem querer, respondo alto que “sim, eu te amo infinitamente, desde o começo”.

“O amor é quando a gente mora um no outro”, disse Mário Quintana, e eu só penso que sempre que “a casa cai”, ainda tenho casa pra morar. E ela não é de concreto, é de amor e poesia. É casa de mãe.

E, mãe, se você leu essa crônica até o fim, agora você sabe que ela não é só uma crônica. É uma jeito que eu dei de você ficar sabendo o quanto eu te amo em cada poesia que faço sobre o amor. Um crônica pra ser lida em um jornal por outras mães, mas que no fim é pra você, como esses versos: “Te amo como se fizesse um poema bem bonito, apesar de não saber fazer. Mas sei que amar é tão bonito quanto um poeta diz não saber”.

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2 thoughts on “Eu te poesio

  1. Coisa mais linda! Sua mãe, com certeza, é alguém muito especial, por ter um filho assim, tão sensível e amoroso ❤️.

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  2. Enche de lagrimas;
    “eu te amo”, na verdade querem dizer que “eu me amo tanto que até transbordo e, por isso, eu te dou um pouco desse meu amor”.
    O amor da sua mãe é tão grandioso que o universo gerou essa continuidade, Você!
    Parabéns pelo lindo texto e a sua Mãe pelo rebento de um poeta.

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