Um poeta com pressa é o primeiro a não chegar

É preciso ter calma para fazer poesia. Um poeta com pressa é o primeiro a não chegar. Um escritor apressado atropela as palavras e bate de frente com o óbvio, com o que já foi dito.

Poesias são palavras que tropeçam nas mãos dos poetas e vão girando lentamente, até caírem num papel como se fossem folhas secas de um outono bem bonito.

A poesia é o outono das palavras.

Ao contrário dos outros ofícios que trabalham com a escrita, o poeta é o escritor que tem a sabedoria de esperar… mas não confunda espera com preguiça. Essa calma é fruto da malícia de quem sabe que poesia é um encontro de palavras, e que esse encontro leva tempo, como um namoro à moda antiga, em que o rapaz devia xavecar sua pretendente por dias, meses, anos… E muitas vezes esse possível namoro nem acontecia. A poesia não tem pressa para acontecer e quase nunca acontece de repente.

O poeta é o escritor que sabe que a espera é importante para que as palavras cheguem e se acomodem. É por isso que o poeta é visto como um tipo manso, preguiçoso… mas não é. É um exímio conhecedor do tempo das palavras. Uma palavra leva tempo pra se despir. Poesia também é isso, um strip-tease lento e sensual da palavra.

E o poeta espera…. Porque o tempo da poesia só depende da vontade da palavra de chegar e se despir. E a única certeza que o poeta tem é que um dia elas chegam e se revelam.

Tem vezes que as palavras vêm aos montes, como se fossem boiadas, atropelando tudo, atravessando rios… cenas das mais bonitas. E o poeta observa as palavras, como um boiadeiro no meio da boiada à espera do boi fugido. O poeta espera o vacilo, o erro, o descuido, o gado travesso… a palavra foragida. São elas que o poeta caça, e vai laçando uma a uma, até encher o curral de poesia. E a boiada de palavras segue. E a poesia fica.

Tem vezes que as palavras não vêm. E o que resta ao poeta é esperar. E ele espera, pois sabe que não adianta procurar pelas palavras quando elas não querem vir. E o poeta espera, aproveita a sombra de uma árvore bem verde no meio do pasto seco. Às vezes até cochila dentro da espera e fica ali por dias, até que escuta de longe a boiada chegar. O chão treme, a poeira sobe. Lá vem chegando a poesia.

A espera é bonita. E o poeta que sabe esperar a travessia das palavras, pega os versos mais sublimes. Quantos bois tiveram que passar para que Adélia Prado escrevesse:

“Uma ocasião, meu pai pintou a casa toda de alaranjado brilhante. Por muito tempo moramos numa casa, como ele mesmo dizia, constantemente amanhecendo.”

Quando dizem que a poesia é ingênua, como coisas que crianças fazem, querem dizer que a poesia não precisa ser importante. A poesia dá desimportância aos fatos, para nos tirar o riso das coisas mais bobas. Poesia não tem lição de moral. A poesia é imoral, de tão boba e bela que é.

“Ameixas. Ame-as ou deixe-as” de Paulo Leminski é de uma desimportância imensa. É como se a palavra tivesse alucinado, de tão despretensiosa que chega. Aliás, poesia também é isso, alucinação.

A poesia é o hospício da palavra. Quando a palavra alucina é na poesia que ela se interna. E não há cura. Uma palavra internada na poesia é uma palavra que se salva da sanidade do mundo.

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One thought on “Um poeta com pressa é o primeiro a não chegar

  1. Belíssimo texto! As palavras têm o poder de encantar. E você usou sabiamente as palavras certas e estou encantada. Obrigada! Amei lê sua escrita tão perfeita e agradável! 👏👏👏😘😘😘❤

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