Nada disso está acontecendo agora

Nada disso está acontecendo agora:
uma bomba nuclear
desaba sobre mais uma cidade
do oriente,
uma tempestade inunda o sertão
e devasta uma seca imensa,
um vinho rega uma mesa de jantar
que está posta pra nós dois.
Uma música toca numa vitrola velha,
enquanto a gente se olha
sentado ao redor de uma mesa de madeira
numa casa de campo bem clichê.
Uma palavra voa da sua boca
e antes que ela fuja
uma outra palavra voa da minha boca
e as duas palavras se beijam na varanda.
Um poema.
Eu declamo um poema,
você me escuta
e depois me devolve
um outro que eu não conhecia.
Sua voz avermelhada
me ensina que o amor
tem o som de um poema
que eu não conhecia
declamado por você.
Um acorde de uma música antiga
toca na vitrola enquanto a gente se toca.
Imediatamente,
eu acordo desse sonho,
ou desse poema,
feliz e triste
que nada disso está acontecendo agora.
Mas quem sabe um dia…

Ontem eu chorei o nosso amor

Meu nome é Lucas, mas você pode me chamar de Henrique se quiser. Aliás, se você me conhecesse um pouco mais, você me chamaria de Henrique algumas vezes. Normal.

Aliás (2), se me conhecesse um pouco mais, você ficaria confuso. É que eu tenho, digamos, uma vida dupla. Sou gêmeos. Sim. Modéstia a parte, existe um cara nesse mundo que é a minha cara. E ainda dizem que ele é mais bonito (obrigado!). Sempre que elogiam o meu irmão, automaticamente, eu agradeço.

Outra qualidade que nós temos, além de ele ser esse cara bonito que eu sou (obrigado!), é que também somos irmãos que se dão bem. Não entramos para a estatística dos gêmeos que não se gostam. Quando pequenos fazíamos quase tudo juntos.

Por exemplo, fomos viciados em videogame-juntos. Quer dizer que nós só jogávamos videogame na companhia um do outro. No Karatê, por muito tempo, fomos o campeão e o vice, e vice-versa. Eu tinha mais habilidade na luta e ele, na apresentação individual. A verdade é que o Henrique tinha pavor de lutar, até nos enfrentarmos numa final de um campeonato municipal. Por compaixão, antes do combate, fiz sinal para pegarmos leve. Ele concordou e, assim que o árbitro deu o sinal, me arrancou o couro. Fiquei feliz (tão quanto machucado) por ter ganho o campeonato através dele. A gente sempre comemorou a vitória um do outro assim, como se fosse a nossa. Ora por orgulho, ora por confusão própria.

Na natação, tínhamos uma sincronia impressionante. Inventávamos a mesma desculpa para não ir, passávamos mal da mesma doença e nadávamos cachorrinho muito parecidos quando estávamos com preguiça. No basquete, ocupávamos a mesma posição, armador. O time tinha dois jogadores iguais, mas com jogadas diferentes, o que confundia bastante a defesa adversária e também os árbitros que anotavam os pontos da partida. Por vezes, fui o cestinha do jogo sem ter feito um ponto.

Somos apaixonados por esporte. Houve uma época em que nós dois queríamos estudar Educação Física. Quando Henrique foi aprovado para o curso, vibrei como se eu que tivesse passado. E depois escolhi outra carreira, satisfeito por ele.

Foi nessa época que começamos a nos distanciar. Antes, tínhamos o mesmo gosto para tudo. Ouvíamos as mesmas músicas, comprávamos as mesmas roupas sem querer, vestíamos igual muitas vezes. Até gostávamos das mesmas meninas. Também tinha disso, de ter o mesmo gosto para as mulheres. E também tinha o contrário, de elas gostarem dos dois. Ou de, no mínimo, fingirem confusão só pra beijar um pouco mais.

Hoje faz dez anos que nos distanciamos um pouco, pela distância física e de gostos. Normal. Faz parte da vida amar, crescer e se distanciar do que você mais gosta só pra sentir saudade depois. E eu sinto saudade demais.

Ontem eu chorei ouvindo uma das músicas que ele mais gosta, “Na Hora do Almoço”, de Belchior. Confesso que me emocionei só de lembrar como o amo e de imaginar como seria a minha vida sem ele.

E se me perguntarem do que eu mais gosto e do que mais odeio em ser gêmeos, eu responderia que do que eu mais gosto é dele. E do que eu mais odeio é de pensar como teria sido a minha vida sem esse cara.

Estreia

Teve um dia que a gente se amou e depois se declamou pela primeira vez. Nesse dia, estreamos nossa eternidade.

Eu te eternizo em mim

“Eu te eternizo em mim”
foi o que eu quis dizer
quando te disse
pela primeira vez
que te amo.
Eu não te eternizei
como quem faz de você
uma pedra,
mas como quem faz de você
uma pluma
e te deixa cair sobre o peito.
Você caiu sobre o meu peito
e eu fiquei como se fosse ave.
E nós dois voamos com o nosso amor.
Na segunda vez
que eu te disse que te amo
foi libertador.
Meu sussurro
bateu como uma rajada
de brisa em você.
E você, agora pluma,
voou tão leve
que ficou eternizada
no amor do mundo.