Ontem eu chorei o nosso amor

Meu nome é Lucas, mas você pode me chamar de Henrique se quiser. Aliás, se você me conhecesse um pouco mais, você me chamaria de Henrique algumas vezes. Normal.

Aliás (2), se me conhecesse um pouco mais, você ficaria confuso. É que eu tenho, digamos, uma vida dupla. Sou gêmeos. Sim. Modéstia a parte, existe um cara nesse mundo que é a minha cara. E ainda dizem que ele é mais bonito (obrigado!). Sempre que elogiam o meu irmão, automaticamente, eu agradeço.

Outra qualidade que nós temos, além de ele ser esse cara bonito que eu sou (obrigado!), é que também somos irmãos que se dão bem. Não entramos para a estatística dos gêmeos que não se gostam. Quando pequenos fazíamos quase tudo juntos.

Por exemplo, fomos viciados em videogame-juntos. Quer dizer que nós só jogávamos videogame na companhia um do outro. No Karatê, por muito tempo, fomos o campeão e o vice, e vice-versa. Eu tinha mais habilidade na luta e ele, na apresentação individual. A verdade é que o Henrique tinha pavor de lutar, até nos enfrentarmos numa final de um campeonato municipal. Por compaixão, antes do combate, fiz sinal para pegarmos leve. Ele concordou e, assim que o árbitro deu o sinal, me arrancou o couro. Fiquei feliz (tão quanto machucado) por ter ganho o campeonato através dele. A gente sempre comemorou a vitória um do outro assim, como se fosse a nossa. Ora por orgulho, ora por confusão própria.

Na natação, tínhamos uma sincronia impressionante. Inventávamos a mesma desculpa para não ir, passávamos mal da mesma doença e nadávamos cachorrinho muito parecidos quando estávamos com preguiça. No basquete, ocupávamos a mesma posição, armador. O time tinha dois jogadores iguais, mas com jogadas diferentes, o que confundia bastante a defesa adversária e também os árbitros que anotavam os pontos da partida. Por vezes, fui o cestinha do jogo sem ter feito um ponto.

Somos apaixonados por esporte. Houve uma época em que nós dois queríamos estudar Educação Física. Quando Henrique foi aprovado para o curso, vibrei como se eu que tivesse passado. E depois escolhi outra carreira, satisfeito por ele.

Foi nessa época que começamos a nos distanciar. Antes, tínhamos o mesmo gosto para tudo. Ouvíamos as mesmas músicas, comprávamos as mesmas roupas sem querer, vestíamos igual muitas vezes. Até gostávamos das mesmas meninas. Também tinha disso, de ter o mesmo gosto para as mulheres. E também tinha o contrário, de elas gostarem dos dois. Ou de, no mínimo, fingirem confusão só pra beijar um pouco mais.

Hoje faz dez anos que nos distanciamos um pouco, pela distância física e de gostos. Normal. Faz parte da vida amar, crescer e se distanciar do que você mais gosta só pra sentir saudade depois. E eu sinto saudade demais.

Ontem eu chorei ouvindo uma das músicas que ele mais gosta, “Na Hora do Almoço”, de Belchior. Confesso que me emocionei só de lembrar como o amo e de imaginar como seria a minha vida sem ele.

E se me perguntarem do que eu mais gosto e do que mais odeio em ser gêmeos, eu responderia que do que eu mais gosto é dele. E do que eu mais odeio é de pensar como teria sido a minha vida sem esse cara.

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