Onde não tiver amor, seja o primeiro

Quando escrevo sobre amor, seja na poesia, na crônica ou onde caibam minhas palavras, faço com medo de soar como um guru. Isso acontece facilmente nas redes sociais. Pessoas falam de amor e outros temas como se fossem os fundadores de sentimentos tão fundamentais.

Eu sei como é difícil escrever sobre o amor sem ser confundido com esses especialistas. Mesmo a poesia sendo o universo da invenção, do absurdo ou do avesso, as pessoas se enganam e pensam nos poetas como doutores do… amor.

Por isso tenho um pouco de medo de falar sobre ele, um sentimento tão popular. De soar piegas ou arrogante. Mas às vezes é preciso falar de algumas definições que confundem amor com, por exemplo, prisão.

Eu cresci rodeado de amor e acho que é por isso que, na poesia, é o tema que mais rabisco. Assim que nasci, tive que aprender muito rápido a dividir o amor dos meus pais com meus irmãos. Nasci prematuro, de sete meses, sem ninguém saber que junto comigo vinha outro de mim, meu irmão gêmeo. Nesse instante, além de aprender a dividir, tive que aprender a amar meus iguais.

Quando meus pais se separaram, aprendi a amar à distância. Às vezes meu pai, às vezes minha mãe que estava mais longe e a gente se amava assim, como um vírus mortal que se propaga na Terra, pelo ar. Também aprendi que os dois, mesmo separados, poderiam se amar. E isso era um grande absurdo para uma sociedade que aprende desde cedo a casar, mas não aprende o que é o amor. E no meio do casamento precisa amar, mas não sabe onde fica o botão que liga esse sentimento.

É assim que muita gente desaprende a amar: casando.

Nós também aprendemos a amar a deus sobre todas as coisas. Como se deus tivesse tempo pra medir o amor que sentimos pelas coisas e depois compará-lo ao que sentimos por ele. Como se ele, o ser perfeito, fosse tão vaidoso. É assim que aprendemos a amar aprisionados, com medo de errar, de decepcionar e de perder o outro. Para provar o nosso amor temos que pedir perdão todos os dias, agradecer todas as noites e dizer “eu te amo” em todos os silêncios. Nesse mundo, é como se o amor precisasse sobreviver a uma guerra todos os dias. Isso não é amor. É o fundamento da morte.

Uma das poetas que mais gosto é Adélia Prado. Sua poesia tem um amor muito bonito de ser lido, é livre. Para Adélia, deus é humano, sensual e desejável.

“Quero coisas pro corpo, o que se suja sozinho e diligente produz sua própria escória. Por astúcia Vos lembro, ó Criador, apesar de eterno e eu histórica, tendes também um corpo. Portanto, feitos um para o outro, Vosso ouvido e minha língua. Ouvi-me pois, antes que, de tanto pedir-Vos, do céu da boca me desabem os dentes.”

Adélia me provoca a ocupar meus vazios com amor. No vazio da minha fé coloco amor. Ocupo-me de amor para atrair mais e mais amores.

Eu quero devolver ao mundo o amor que recebi em casa. Ao contrário dos que fogem desse sentimento, eu quero estar onde o amor está. E também quero estrear o amor onde ele ainda não esteve.

Onde não tiver amor, eu quero ser o primeiro.

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3 thoughts on “Onde não tiver amor, seja o primeiro

  1. O melhores tipos de Amores: incondicionais. Mesmo quando não correspondido não deixa de ser amor. Engana-se quem acha que pra tê-lo é necessário mais de um. Lindo!

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