Prainha

O lugar que aprendi a pescar
não tinha rio, nem mar.
Varas e iscas, fazíamos
com as mãos na cabeça
e os olhos marejados.
No lugar que aprendi a pescar,
os peixes que a gente pegava
não davam pra gente comer,
mas matavam um pouco da fome
e da sede.
Era coisa da nossa cabeça
pescar o peixe
só pra depois soltar o peixe,
deixar o bicho sumir
nas águas escuras do rio,
do mar ou desse lugar
que aprendi a pescar.
O lugar não era uma praia
igual essas praias de pescadores.
Era uma praia de pescar outras coisas.
De pescar dias… de pescar dores.
E não tinha nem nome
o lugar que aprendi a pescar.
Até que o povo
que visitava a prainha há anos,
a mesma prainha que eu aprendi a pescar,
começou a chamar o lugar
de saudade.

Boteco saudade

A cena começa assim: estou chegando num bar e o estabelecimento está lotado. Dá para ver de longe que as pessoas mal cabem no boteco.

Quanto mais me aproximo, mais reconheço os rostos. Na primeira mesa, Flavinho, sua mulher e alguns outros amigos conversam entusiasmados. Nos cumprimentamos com um abraço forte, Flavinho está feliz, como há dias não o via. No aperto, ele me olha como se me dissesse “que bom que chegou para ver isso”. Depois nos despedimos e sigo.

Continuo pelas mesas repletas de gente conhecida. Mais adiante, avisto outros amigos antigos: Jairo, Orisvaldo, Edvan, Xigí e alguns outros. Todos estiveram na minha infância. Não há como conter a euforia dos que me olham e apontam com a cabeça para o fundo do bar. Alguma coisa acontece por lá. Continuo o caminho pelo boteco.

O próximo grupo é grande, uma penca de gente da nossa família brinda e ri alto. Alguns erguem os copos cheios de cerveja, que chegam a derramar na mesa. Tio nego, tia zinha, primos e primas… estão todos ali numa espécie de celebração ou de alívio. Riem de tudo. Essa cena é antiga e me lembra dos tempos na casa da Tia, com a família inteira reunida ao redor da churrasqueira. Ao me ver, se levantam e me cumprimentam como se eu fosse o convidado que faltava chegar. Tio Nego me conduz à próxima mesa, a maior do bar.

Uma mistura de parentes, irmãos e amigos, escutam atentamente uma cantoria que vem da outra ponta da mesa. Leitão só me olha e sorri. Da última vez que nos vimos éramos dois rios desaguando num mar de saudade. A maré estava baixa naquele dia. Sua família está ao seu lado. Ao seu lado também estão outros amigos. Carlim está ao lado da Maroca, e os dois me abraçam ao mesmo tempo, sem tirarem seus olhos de onde vem a canção. Do lado oposto estão meus irmãos Digão, Henrique, Gabi e Isabella, que fuxicam e, possivelmente, fazem piadas do meu cabelo. Como eu os amo. O Ceguinho também está próximo e, ao me ver, se levanta, me dá um abraço apertado e chora. Chora de felicidade, tanto quanto chora na tristeza.

Chego à ponta da mesa, da última mesa do bar, com um violonista e um cantor concentrados no show. Ao lado dos dois, reconheço a Aline, mulher do meu pai, que sorri como sempre, num mix de timidez e encantamento pela apresentação. Tio Luiz toca um violão velho, parecido com o que ficava no quarto de hóspedes da casa do pai. E toca de mal a pior, mas de um jeito tão dele que fica difícil não admirar. Reconheço meu pai pela música que canta, como se fosse um cantor de ópera: “você sabe o que é ter um amor, meu senhor, e por ele quase morrer…”.

Se entrega ao espetáculo como se cantasse sua última música. Puxa o ar bem forte em cada pausa e derrama sua voz alta e trêmula sobre todo o bar. Fico feliz de ter conseguido chegar para a última canção.

Assim que a música termina, antes de ouvir os aplausos da plateia do boteco, abro meus olhos. Estou num quarto vazio, de uma casa vazia, de uma família vazia, de amigos vazios… estamos todos vazios do meu pai.

Mas feliz por saber o que foi ter esse amor e por ele quase morrer. Ou morrer de verdade.

Não é só caminhar

“Quando começamos a viver a jornada de compostela, percebemos que ela é muito maior do que só csminhar. Todo passo que damos, seja com os pés ou com o coração, é um caminho.” Trecho do novo livro Amores ao Sol, de Lucão.

Amores ao Sol no Rio de Janeiro e em Fortaleza

Olá, amigos.

Como sabem, tenho divulgado por aqui há pouco tempo, agosto é o mês de lançamento do meu novo livro, Amores ao Sol, minha estreia no gênero Romance. O livro é uma ficção baseada em uma história real que vivi no Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha.

Estou passando para convidar leitores do Rio de Janeiro e de Fortaleza para os próximos encontros que iremos realizar com o Amores ao Sol. No dia 18, próximo sábado, às 16h, realizaremos uma sessão de autógrafos na Livraria Travessa de Ipanema, no Rio. Além dos autógrafos, também acontecerá um bate-papo com leitores sobre o livro e a viagem que inspirou a história e a escrita literária.

No sábado seguinte, dia 25, estaremos em Fortaleza, às 16h, para repetir o evento do Rio.  Será na Saraiva do Shopping Iguatempo, com bate-papo, sessão de autógrafos e muito carinho com os leitores do Ceará.

Vocês são nossos convidados para esses eventos. Em breve, esperamos encontrar com leitores de outros estados nos próximos eventos de lançamentos do Amores ao Sol.

Até lá!

Lucão Amores ao Sol