Boteco saudade

A cena começa assim: estou chegando num bar e o estabelecimento está lotado. Dá para ver de longe que as pessoas mal cabem no boteco.

Quanto mais me aproximo, mais reconheço os rostos. Na primeira mesa, Flavinho, sua mulher e alguns outros amigos conversam entusiasmados. Nos cumprimentamos com um abraço forte, Flavinho está feliz, como há dias não o via. No aperto, ele me olha como se me dissesse “que bom que chegou para ver isso”. Depois nos despedimos e sigo.

Continuo pelas mesas repletas de gente conhecida. Mais adiante, avisto outros amigos antigos: Jairo, Orisvaldo, Edvan, Xigí e alguns outros. Todos estiveram na minha infância. Não há como conter a euforia dos que me olham e apontam com a cabeça para o fundo do bar. Alguma coisa acontece por lá. Continuo o caminho pelo boteco.

O próximo grupo é grande, uma penca de gente da nossa família brinda e ri alto. Alguns erguem os copos cheios de cerveja, que chegam a derramar na mesa. Tio nego, tia zinha, primos e primas… estão todos ali numa espécie de celebração ou de alívio. Riem de tudo. Essa cena é antiga e me lembra dos tempos na casa da Tia, com a família inteira reunida ao redor da churrasqueira. Ao me ver, se levantam e me cumprimentam como se eu fosse o convidado que faltava chegar. Tio Nego me conduz à próxima mesa, a maior do bar.

Uma mistura de parentes, irmãos e amigos, escutam atentamente uma cantoria que vem da outra ponta da mesa. Leitão só me olha e sorri. Da última vez que nos vimos éramos dois rios desaguando num mar de saudade. A maré estava baixa naquele dia. Sua família está ao seu lado. Ao seu lado também estão outros amigos. Carlim está ao lado da Maroca, e os dois me abraçam ao mesmo tempo, sem tirarem seus olhos de onde vem a canção. Do lado oposto estão meus irmãos Digão, Henrique, Gabi e Isabella, que fuxicam e, possivelmente, fazem piadas do meu cabelo. Como eu os amo. O Ceguinho também está próximo e, ao me ver, se levanta, me dá um abraço apertado e chora. Chora de felicidade, tanto quanto chora na tristeza.

Chego à ponta da mesa, da última mesa do bar, com um violonista e um cantor concentrados no show. Ao lado dos dois, reconheço a Aline, mulher do meu pai, que sorri como sempre, num mix de timidez e encantamento pela apresentação. Tio Luiz toca um violão velho, parecido com o que ficava no quarto de hóspedes da casa do pai. E toca de mal a pior, mas de um jeito tão dele que fica difícil não admirar. Reconheço meu pai pela música que canta, como se fosse um cantor de ópera: “você sabe o que é ter um amor, meu senhor, e por ele quase morrer…”.

Se entrega ao espetáculo como se cantasse sua última música. Puxa o ar bem forte em cada pausa e derrama sua voz alta e trêmula sobre todo o bar. Fico feliz de ter conseguido chegar para a última canção.

Assim que a música termina, antes de ouvir os aplausos da plateia do boteco, abro meus olhos. Estou num quarto vazio, de uma casa vazia, de uma família vazia, de amigos vazios… estamos todos vazios do meu pai.

Mas feliz por saber o que foi ter esse amor e por ele quase morrer. Ou morrer de verdade.

Published by

One thought on “Boteco saudade

  1. Que riqueza de detalhes tão doces…a leveza com que escreve é encantadora! É fácil imaginar a cena! Que a paz sempre te abrace por ter sido presenteado com um relação de pai e filho tão amorosa ‘A saudade é um lugar que só chega quem amou!’ Linfo! ♡

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s