Casa bagunçada

Quando a gente passou pelo bairro de casinhas parecidas, alguém disse “Olha o tanto que elas são iguaizinhas. Como será que são por dentro?”. Fiquei olhando para essas casas, me lembrando de todas que eu já morei. E foram tantas… Casa grande, casa pequena, sobradinho, apartamento, casa da vó. Por fora, cada uma era uma casinha diferente, pintada de branco, de verde, amarelo. De portão grande, pequeno, garagem na frente, no fundo, quintal… Mas me lembro que por dentro eram todas iguais.

Se eu pudesse descrever cada casa que vivemos, as histórias que passamos juntos nelas, elas seriam as mesmas.

Por dentro, todas as casas tinham uma só voz, a mesma voz que ora amava, ora brigava. Uma voz de uma mulher bem forte, que organizava tudo sozinha, fazia o café, o almoço, os lanches, distribuía as tarefas da casa, que a gente, três meninos da mesma idade, ajudava a manter limpa enquanto bagunçava de novo.

E nessa casa tinha hora e lugar pra tudo. Tinha hora pra tomar café, hora pra lanchar, pra dormir … Pra arrumar e limpar a casa era o que mais tinha hora. Tinha hora de brincar na rua, de jogar videogame e estudar. A hora de estudar era sempre maior que as outras horas, e isso deixava a gente bastante irritado com a voz dessa casa.

Cada coisa nessa casa também tinha um lugar. Tinha lugar pro tênis, pra roupa, pras tralhas… pra sujeira, era o lixo o lugar dela estar. Não podia ficar poerinhas no chão que a voz aumentava até que a poeira sumisse. Era uma casa bastante organizada, com hora e lugar pra tudo. Só não tinha hora e lugar pra amar. Pro amor, a bagunça estava liberada.

Era mesmo uma bagunça amar por ali. Quem andava pelos cômodos via que tinha amor espalhado por todos os cantos: jogado sobre o piso da sala, esparramado sobre o sofá, molhado sobre a cama do quarto, esfarelado sobre a mesa do café ou sujo na pia da cozinha. E a minha mãe, dona da voz dessa casa, nem ligava pra essa bagunça. Ela até jogava mais amor por cima quando a casa estava bagunçada assim. Nessa casa organizada, podia amar à vontade.

A porta dessa casa também era feita de amor. Vez ou outra chegava gente pra ficar um tempo, tomar café, pedir conselho, chorar pitangas, ouvir as broncas que a dona da casa tinha pra dar… depois ia embora agradecida.

Teve dia que dormiu mais gente nessa casa. Gente que chegava de madrugada chorando e só saia depois do café, sorrindo. Era um povo que aprendia devagar que nesse lar o tempo era precioso e resolvia muita coisa. Era só dar amor e tempo que as pessoas melhoravam. E, claro, mais um pouco de bronca quando precisasse. Era uma casa bagunçada de amor, pra quem morava e também pra quem chegava de penetra.

Mas ainda me lembro que os sapatos, as toalhas e a louças, esses tinham que estar sempre no mesmo lugar ou a voz forte da mulher surgia, como a voz de deus surge nos filmes, pra organizar essa bagunça.

Cada casa que a gente morava era diferente vista de fora. Sobrado, apartamento, casa da vó… A gente sempre mudava de endereço. Mas vista por dentro, era como se nunca tivesse mudado dessa casa bagunçada.

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