Chique

Acho chique faltar as palavras.
Esse instante que a gente
tenta dizer algo bonito
e as palavras não vêm,
mas tem certeza
que essa coisa que a gente
queria dizer é tão bonita
quanto um poema.
Faltar as palavras
é coisa de poeta.
Um poeta sem poema,
mas com uma vocação
imensa.

Reset

Eu nasci muito antes do meu nascimento. Fui nascendo aos poucos.

Quando minha mãe nasceu, um pedaço de mim estava ali. O mesmo aconteceu com o nascimento do meu pai, tinha um pouco de mim naquele dia.

Meu pai cresceu na roça, numa cidade chamada Piracanjuba, o caçula de uma cria de onze filhos. O que o meu pai aprendeu nesse lugar eu fiquei sabido por tabela.

Ainda antes d’eu nascer, aprendi muitas coisas que a minha mãe viveu. Quando meu avô, que era alcóolatra, chegava bêbado em casa e batia na minha avó, eu aprendi a ser e a não ser um machista, a bater e a não bater em mulher, a beber sem limite e a ter limite com álcool, a destruir e a cuidar do meu corpo. Tudo isso eu comecei a aprender naquele tempo, ora com meu avô que batia, ora com minha mãe que não queria viver esse pesadelo nunca mais na vida.

Depois, quando nasci de verdade, fui assimilando outras coisas que foram me formando como pessoa presente no mundo. Sou filho de todas as experiências que vivi.

Meu gosto musical, por exemplo, das coisas que mais gosto em mim, tive a sorte de construir em casa. Meus pais tinham bom gosto pra música. Isso veio também da participação política que eles tiveram na década de oitenta, a que nasci. O movimento artístico, principalmente dos músicos pós-ditadura, os encontros com os amigos dos meus pais, as músicas que tocavam na rua, nos comícios. Ouvi muito Rock’n Roll, MPB… sou feito disso. Mas também fui formado na rua de agora, no que os meus amigos ouvem, no que toca nas festas, na cultura sertaneja da minha região. Por isso, não sei muito bem se o que gosto é resultado de uma escolha totalmente minha.

A política também, o interesse, o posicionamento, eu desenvolvi bastante em casa, com muita discussão e participação dos meus pais. Mas também fui influenciado por jornais, leituras, debates. Tenho um posicionamento político claro, mas não sei até que ponto essa clareza, essa minha escolha, é absolutamente minha.

Outra coisa que me orgulho de ter aprendido em casa tem a ver com amor. Fazer o bem às pessoas, ser cuidadoso, respeitoso… tive lições que não me deixaram ser má gente. Tive e ainda tenho uma família de amor. Meus pais sempre foram amorosos: no trabalho, em casa, na roda de amigos. E eu aprendi que amor não é beijo. Descobri em casa que amor é quando a gente deseja que o outro seja feliz e se esforça pra que isso aconteça.

Mas também aprendi outras coisas, como a casar, a ser feliz prometendo a deus e a centenas de convidados uma vida que eu não podia prever.

Hoje, vivo o paradoxo de ter e não ter clareza de quem eu sou. O que falo para os outros, como me relaciono, onde gosto de ir, como trato as mulheres, como trato os negros, os gays, o que acho da política, a roupa que uso, meu cabelo… não sei se faço ou uso porque gosto ou porque aprendi a gostar.

Eu pensava que, quando chegasse à idade de hoje, eu saberia bem mais sobre mim. Mas quanto mais envelheço, mais percebo que a maioria das coisas que me fazem ser quem eu sou, não são minhas.

Por isso, hoje, eu quero fazer uma nova jornada para me refazer, me reconstruir, me resetar.

Minha dúvida é: quando eu chegar nesse dia, ou nesse lugar, quem será que eu vou ser?

Depois

Sempre que vejo sua foto
me sinto feliz.
Desculpe-me por isso,
por usar sua foto para ser feliz.
Você não gosta
de amar as pessoas depois do fim,
mas eu gosto.
Eu gosto do gostinho que fica
depois que o amor vai embora.
Gosto desse amor de depois.