Saudade é o perfume que o amor deixa na gente

Saudade é cheirosa. Tem cheiro de amor. Toda saudade tem cheiro de amor. Todo amor produz saudade gostosa de sentir. Ela é o perfume que fica quando o amor vai pra longe da gente.

Quando estou sozinho, quase sempre estou em alguma saudade. E não são poucas as vezes que fico sozinho… não são poucas as vezes que sinto o perfume do amor.

Das pessoas que perdi, uma saudade cheirosa é a que tenho do meu avô. Lembro-me de quase tudo que vivi com ele. É como se o velho Miguel ainda estivesse entre a gente. Coisa que o vô mais sabia fazer, ficar entre a gente.

Era um vô muito presente, afetuoso com os netos, mimava e fazia de tudo para nos ter sempre por perto. Coisa de vô, coisa de gente cheirosa. E eu me lembro de quase tudo, com muita saudade e um pouco de arrependimento de não ter aproveitado mais os momentos com ele, de não ter dado mais atenção para os mimos do Seu Miguel. Mas criança é assim mesmo, muito nova pra pensar em saudade. Criança não liga para perfumes.

São muitas as lembranças, os aromas que o vô me deixou.

Recordo-me que ele sempre arrumava um motivo pra gente se ver. Era um vô muito presente, gostava de organizar as coisas, os almoços de domingo, as festas de fim de ano… tudo era agendado com muita antecedência para nos ver. Ele, sem dúvida, nos dava muito amor. Era como se tentasse, de algum jeito, compensar as ausências com os filhos. Era um amor bem bonito e cheiroso.

Seu Miguel era quem juntava a família com os almoços de domingos. Os tios e a vó ficavam na cozinha, ao redor da mesa. E o vô já tinha um lugar reservado no canto da sala, colado na parede, de onde podia ver todos os netos, que sempre almoçavam na sala, assistindo TV. Esse era o lugar que ele mais gostava de ficar, onde os netos estivessem.

Tinha dias, de domingo, que a família discutia, os irmãos se desentendiam e iam embora magoados uns com os outros. E o vô era o responsável por juntar todos de novo. Passava a semana ligando pra um, conversando com o outro, até resolver a desavença e garantir que no próximo domingo estariam todos na sua casa de novo. No fundo no fundo, o que o vô queria mesmo era assegurar que, na próxima semana, os netos estivessem de novo com ele.

Outra coisa que o vô fazia e ainda enche o meu presente de saudade era de nos buscar na escola. Ele sempre armava uma surpresa com comida ou brinquedos. Às vezes escondia saquinhos de pipoca debaixo dos bancos pra gente encontrar. Como eu gostava! A brincadeira era mais gostosa que a pipoca.

Uma das saudades mais perfumadas que tenho do vô é de uma tarde que passamos juntos fazendo um carrinho de rolimã. Ao lado do mecânico aposentado, fiz um carrinho tão veloz, que ganhei campeonatos no bairro. O vô me ensinou a fazer e, depois, a engraxar as rodinhas do carro pra ele ficar sem barulho e mais rápido.

Sempre sinto o aroma dessa tarde que passamos juntos. Uma tarde inteira, que recordo os detalhes, o rosto do vô, sua pele rosada com manchas de vitiligo. E o sorriso.

Confesso que mal me lembro como se faz um carrinho. Mas se me perguntarem como se faz uma saudade cheirosa, se faz com uma tarde inteira ao lado do meu vô Miguel.

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