Reset

Eu nasci muito antes do meu nascimento. Fui nascendo aos poucos.

Quando minha mãe nasceu, um pedaço de mim estava ali. O mesmo aconteceu com o nascimento do meu pai, tinha um pouco de mim naquele dia.

Meu pai cresceu na roça, numa cidade chamada Piracanjuba, o caçula de uma cria de onze filhos. O que o meu pai aprendeu nesse lugar eu fiquei sabido por tabela.

Ainda antes d’eu nascer, aprendi muitas coisas que a minha mãe viveu. Quando meu avô, que era alcóolatra, chegava bêbado em casa e batia na minha avó, eu aprendi a ser e a não ser um machista, a bater e a não bater em mulher, a beber sem limite e a ter limite com álcool, a destruir e a cuidar do meu corpo. Tudo isso eu comecei a aprender naquele tempo, ora com meu avô que batia, ora com minha mãe que não queria viver esse pesadelo nunca mais na vida.

Depois, quando nasci de verdade, fui assimilando outras coisas que foram me formando como pessoa presente no mundo. Sou filho de todas as experiências que vivi.

Meu gosto musical, por exemplo, das coisas que mais gosto em mim, tive a sorte de construir em casa. Meus pais tinham bom gosto pra música. Isso veio também da participação política que eles tiveram na década de oitenta, a que nasci. O movimento artístico, principalmente dos músicos pós-ditadura, os encontros com os amigos dos meus pais, as músicas que tocavam na rua, nos comícios. Ouvi muito Rock’n Roll, MPB… sou feito disso. Mas também fui formado na rua de agora, no que os meus amigos ouvem, no que toca nas festas, na cultura sertaneja da minha região. Por isso, não sei muito bem se o que gosto é resultado de uma escolha totalmente minha.

A política também, o interesse, o posicionamento, eu desenvolvi bastante em casa, com muita discussão e participação dos meus pais. Mas também fui influenciado por jornais, leituras, debates. Tenho um posicionamento político claro, mas não sei até que ponto essa clareza, essa minha escolha, é absolutamente minha.

Outra coisa que me orgulho de ter aprendido em casa tem a ver com amor. Fazer o bem às pessoas, ser cuidadoso, respeitoso… tive lições que não me deixaram ser má gente. Tive e ainda tenho uma família de amor. Meus pais sempre foram amorosos: no trabalho, em casa, na roda de amigos. E eu aprendi que amor não é beijo. Descobri em casa que amor é quando a gente deseja que o outro seja feliz e se esforça pra que isso aconteça.

Mas também aprendi outras coisas, como a casar, a ser feliz prometendo a deus e a centenas de convidados uma vida que eu não podia prever.

Hoje, vivo o paradoxo de ter e não ter clareza de quem eu sou. O que falo para os outros, como me relaciono, onde gosto de ir, como trato as mulheres, como trato os negros, os gays, o que acho da política, a roupa que uso, meu cabelo… não sei se faço ou uso porque gosto ou porque aprendi a gostar.

Eu pensava que, quando chegasse à idade de hoje, eu saberia bem mais sobre mim. Mas quanto mais envelheço, mais percebo que a maioria das coisas que me fazem ser quem eu sou, não são minhas.

Por isso, hoje, eu quero fazer uma nova jornada para me refazer, me reconstruir, me resetar.

Minha dúvida é: quando eu chegar nesse dia, ou nesse lugar, quem será que eu vou ser?

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2 thoughts on “Reset

  1. Esse dia talvez não chegue. Quanto mais busco auto conhecimento, mas percebo o quanto essa busca é infinita e contínua. E vai ficando mais gostoso também!
    Que crônica maravilhosa, sensível, profunda. Apertou a saudade que sinto do meu pai, que fez tanto do que sou, mas também concluiu perfeitamente uma conversa de horas que tive agorinha mesmo com uma amiga.
    Obrigada!

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  2. Cara, conseguiu verbalizar de você e falar total do que estou vivendo hoje. Toda essa reflexão e tentativa de reconstrução. O desconstruir não é mole, mas é ao mesmo tempo incentivo e libertador. Ouvi que crescer dói e concordo plenamente, mas escolher não crescer e se sentir a esmo a meu ver me corrói mais. Parabéns pela sensibilidade e talento com as palavras.

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