Eu adoro Paris e Adélia

Adoro as horas que passo comigo. E sempre encanta-me a possibilidade de ficar só. É como gosto de fazer as duas coisas que mais amo: ler e escrever. Ficar sozinho, longe dos ruídos, mais perto de mim é um vício.

Não é fácil entrar no estado de solitude. Antes, preciso me despedir das pessoas e coisas que me rodeiam, das distrações, dos pensamentos, dos amores. Demoro a chegar nesse estado. Mas quando chego, começo a viver os prazeres que só experimento quando despeço-me de tudo.

Sozinho, vivo o que gosto. Ouço as músicas que me deixam bem, visto o que quero usar, faço o que me deixa relaxado, foco no que me inspira e me estimula. Crio um repertório imenso de prazeres quando estou rodeado só por mim.

E escrevo. Não há possibilidade de escrever com prazer quando estou na companhia de outras pessoas. Preciso ficar sozinho.

Demoro a, de fato, pegar na caneta. Primeiro pego em tudo que está sobre a mesa. Tenho pilhas de livros na bancada. Passo a mão em alguns, pego um de Adélia, abro na página marcada, leio um poema. Fecho o livro devagar, estou pensando nos versos. Encosto as costas na cadeira, lembro de coisas antigas, me vem uma cena: estou numa casa no meio do mato, sentado na cozinha, o café está servido na mesa. Eu observo a vida lá fora pela porta dos fundos.

Passo a mão em outro livro, abro onde está um marcador de página, leio uma crônica de Quintana, uma bobeira que só: “É preciso escrever um poema várias vezes para que dê a impressão de que foi escrito pela primeira vez.” Penso sobre os poemas. Quero escrever alguns versos, mas ainda não sei sobre o que.

Nessa solidão, o pensamento é o começo da escrita. Estou pensando sobre mim e escrevendo sobre isso. Parece que vou terminar uma crônica. Rabisco como se fosse um diário, mas não é. É sobre estar só. Não termino.  

Deixo a crônica de lado, mas não fecho o caderno. Parece que vou escrever um poema. Começo a rabiscar alguns versos sobre Paris, como se tivesse passado uma vida por lá. Amo a vida francesa e o jeito que as pessoas se relacionam. Há uma frieza entre os franceses que me encanta. Não há pressa nos amores parisienses. Tomam taças de vinho enquanto conversam. E quando o vinho termina, a prosa está longe do fim e eles ainda nem se amaram. Em Paris ainda há tempo pra amar. Eu aprendi isso nos filmes. E numa viagem que fiz a Paris, mas não amei ninguém.

Paro de escrever, acho que terminei o poema. O último verso é assim: “O que eu odeio em Paris é de nunca ter ido a Paris com você. E de você ser um filme francês que eu nunca assisti e que não sei nem o nome.”

Pego um caderno em branco e resolvo começar um novo livro. A primeira linha do caderno é “Pelo direito de viver…” Agora tenho que terminá-lo. Não gosto de deixar as coisas pela metade, apesar de ainda nem ter começado.

Gosto dessa solidão. Quando percebo, estou tão longe, que a minha volta à vida normal é demorada. Onde eu estava mesmo nessa crônica?

Ah, sim! Eu dizia que adoro ficar só. Rabisco coisas que dificilmente escreveria se estivesse rodeado por gente. São momentos de muito prazer.

Ficar só é uma forma de contemplar as estrelas que brilham dentro de mim.

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