Adeus palavra velha, feliz palavra nova

Adeus palavra velha, feliz palavra nova

O que eu desejo a nós para o próximo ano é muita palavra nova. 

É um desejo de quem espera ouvir mais as palavras carinhosas do que as ofensivas no ano que vem. É o meu sonho, que a gente tenha muitas palavras disponíveis na cachola para escolher as melhores na hora de falar e escrever. O meu sonho é a que a gente leia mais. 

Admiro gente que sabe usar as palavras. Que respira antes de falar, que olha perdido enquanto pensa, puxa devagar o ar enquanto escolhe, cria um suspense nos segundos de silêncio que antecedem a fala e fala bonito. Gosto desse tipo de pessoa, que consegue falar bem tanto pra falar da dor quanto do amor. É gente que tem recurso, que sabe administrar o amplo vocabulário que tem. 

Por três vezes, Mario Quintana, um dos mais importantes escritores da nossa história, se candidatou à Academia Brasileira de Letras. Por motivos de “politicagem”, como ele mesmo dizia, perdeu nas três. Com a promessa dos imortais de uma vaga garantida em uma nova tentativa, Quintana desistiu de competir pela vaga. E ao invés de mandar todo mundo se lascar, fez o Poeminha do Contra: “Todos esses que aí estão / Atravancando meu caminho: / Eles passarão… / Eu passarinho.”. E foi assim que ele ganhou a imortalidade, sem dizer uma palavra feia e sem precisar se sentar na cadeira dos imortais.

É isso que eu desejo a todos nós, o empalavreamento, que é o empoderamento através palavra. 

Nos cursos de escrita que ministro pelo Brasil, começo o primeiro módulo falando da leitura. Não há escrita boa se antes não vier uma leitura melhor. Não há piloto de avião que sustente uma aeronave no ar se não tiver estudado um bocado sobre voos e aviões. O bom da palavra é que quando você estuda, lê e aprende sobre ela, você também voa, como um piloto de avião bem estudado. A palavra é asa. 

Imagine que você está em um museu, andando pelas salas, vendo as obras de cada ambiente. De repente, na última sala, de longe você avista uma espécie de caixa acrílica que protege um objeto. “Só pode ser algo importante”, você pensa. E caminha em direção a essa caixa. Quando se aproxima um, percebe que existe um óculos dentro dela, um óculos de grau comum. Você se aproxima um pouco mais da obra e repara em um papel que está ao lado do óculos. Está escrito alguma frase em letras bem pequenas, que você ainda não consegue ler. Então você se aproxima mais, até quase tocar o nariz na caixa, e então consegue ler: “Isso não é um óculos”. 

Esse é o poder que a palavra tem, de modificar objetos, coisas, pessoas, histórias, memórias, governos, Estados. Esse é o meu desejo, que através das palavras, da boa rede semântica, consigamos modificar nossa história para que o próximo ano seja diferente, de mais amor e cuidado com o outro. 

E que as palavras sejam ferramentas de realizar sonhos, construir afetos, derrubar preconceitos, promover acolhimento. Que viajemos mais em histórias, as dos livros e também das memórias… Quem viaja assim, lendo, conhece um mundo muito maior do que ele mesmo pode ser. 

É como já disse Manoel de Barros, um outro poeta maior que nós temos: “Gosto de viajar por palavras do que de trem.”

Feliz empalavreamento a todos!