Amor açucarado

Amor açucarado

Gosto do amor açucarado. Declaro-me à pessoa amada como quem faz doce na confeitaria. Primeiro, amasso bem a pessoa. Depois, deixo-a descansar até ela dormir. E quando ela acorda, eu jogo um quilo de amor por cima. 

Sou como as formigas doceiras, que carregam doces imensos para suas casas, bem maiores e mais pesados do que elas mesmas. Lambuso-me de doce. Só que eu carrego um doce chamado amor, bem maior do que o meu corpo, bem mais doce do que eu mesmo sou. Na verdade, eu sou o sal, e o doce que eu carrego me equilibra. Não posso deixá-lo cair. Só que um dia, o amor que a gente carrega cai, o doce se esparrama pelo chão e um bocado de formigas doceiras aparecem para comer o amor com a gente. É que no fim é sempre assim: o amor que a gente carrega é o doce que a gente divide. 

Sou poeta que fala de amor. Mas ao contrário do que imaginam, não falo só dos meus amores nos meus poemas. Falo de todos os amores, de amores que vi, que vivi e de amores inventados, dissimulados, ridículos, exagerados e impossíveis. Amo mais a palavra amor do que o amor. E às vezes até entrego poemas açucarados, só pelo prazer de falar de amor, mesmo sem ter comido um grão de açúcar desse doce. Mas também amo amar. E quanto mais amo, mais escrevo. E quanto mais escrevo, mais amo. Sou viciado em doce.

Gosto das declamações e das declarações em praça pública. Das pessoas que se jogam ao poema e ao amor sem medo de se arrebentar no chão. Não há poema nem amor sem arrebentação. O ato de se jogar ao outro e se esborrachar é premissa para amar. Já disse uma vez um poeta: “A dor do amor é amor também”. Não viva amores sem se declarar. Não escreva poemas sem declamá-los a alguém. Divida o ouro do amor com o povo. E se o amor não for recíproco, ao menos você espalhou sua fortuna. 

É dura a tarefa de quem pensa em amar sem se machucar. É impossível de viver o amor assim, pois o amor é esse jogo de tudo ou nada. Ou você ama em absoluto ou está sempre nas margens. Para amar é preciso chegar ao centro, como num tufão, é preciso passar pela tormenta, se segurar onde puder, agarrar o amor pelos cabelos e esperar que os ventos das beiras passem. É no centro que a gente se assenta, troca bilhetes, juras, planos, vinhos. É no centro que o amor descansa.

Mas se segure, vai passar outro tufão, e vai roubar você do amor e te jogar pras beiras de novo. E você vai girar até ficar bem bobo, bocó e tonto. Que amar é isso, coisa de gente tonta. Como eu amo os tontos. 

Gosto do amor exagerado, do que se declara desesperadamente. Do que diz “eu morro por você” e vive mais por isso. Das pessoas que se jogam de precipícios e se esborracham em corações alheios. Eu não tenho paraquedas reserva. Quando me jogo, eu quase morro. E é assim que eu vivo. Amar de pouco em pouco não é para mim. Gosto de quem me olha com raiva de tanto me amar. Gosto mais dos apertos que do toque. Não gosto de quem ama escondido. Pra me amar tem que ser escancarado, como um político populista que discursa em praça pública. Eu quero o berro do amor. Eu não gosto de quem faz tipo. Gosto de quem topa e faz. Da última vez que eu amei só um pouco, o amor mal deu pra mim.