Best friends forever

Best friends forever

Lembro-me de quando eu era criança e tinha um bocado de melhores amigos. Havia uma competição entre os colegas para saber quem entraria para o grupo de melhores amigos do outro. Muitas vezes eles eram escolhidos com barganhas. Quem chamasse para jogar videogame conquistava alguns pontos. Convidar para dormir em casa valia um pouco mais. Escolher o colega para o time da pelada era um passe direto ao grupo dos best friends.

Depois eu cresci, desfiz algumas melhores amizades e a lista começou a ficar mais miúda. Na adolescência, limpei alguns nomes, troquei amigos antigos por recentes, com a promessa que seríamos melhores amigos para sempre, até que o amigo me traiu com a minha namorada e o substituí pelo amigo antigo de novo. Foi quando descobrí que alguns amigos valem mesmo para a vida toda.

E aí, quando fiquei mais velho, a lista quase acabou. Um ou dois amigos, que eu só me lembro quando recordo uma história, continuam nela. A lista se solidificou como uma pérola. São amigos valiosos, que vão ficar para o resto da vida comigo.

Mas aí, com a lista fechada, abrí uma outra, que eu chamei de Lista de Amores. Coloquei poucas coisas nela: família, algumas pessoas importantes, a música, viagens e os livros. Os livros, hoje, são grandes amores da minha vida. Amo ler. E o mais legal: com eles voltei a fazer novos melhores amigos.

Há pouco tempo, conheci Elena Ferrante, uma autora italiana reconhecida mundialmente. O primeiro livro que li, Um Amor Incômodo, me deixou, como o próprio nome diz, incomodado. Fiquei sem saber se havia gostado ou não. Então eu li Frantumaglia, um livro de cartas que a autora trocou com leitores e jornalistas. E fiquei encantado com a escrita paciente de Ferrante.

Ela escreve sem pressa, como quem não quer deixar nada de fora do livro. Descreve os detalhes, as miudezas, as histórias que os outros não contam. Até as poeirinhas que sobem de um móvel antigo estão em seus livros.

Em Amiga Genial, o primeiro da série Napolitana de quatro livros, Elena me levou a Nápoles, uma cidade italiana marcada por desigualdades sociais e muitos conflitos urbanos. Lendo-o, vi a sujeira das ruas, as tensões das famílias, a cidade bagunçada.

E agora, estou aqui, de Nápoles na Itália, escrevendo essa crônica, como se estivesse em um lugar conhecido, amigável. Sinto-me quase um nativo, graças à Elena Ferrante e à sua paciência em me contar tantas histórias. Rio sozinho observando as casas, as pessoas, as vendinhas. Sei das intimidades desse povo todo.

Isso que Elena fez por mim não é coisa só de amigo. Isso é coisa de Best Friends Forever.