Como nasce uma crônica

Como nasce uma crônica
Outro dia, fui bater um papo sobre crônicas com uma turma de jornalismo de uma universidade e, pra variar, falei demais. Eu adoro falar sobre leitura e escrita, as coisas que mais amo. Então eu falo o tanto que posso para tentar empolgar os demais a ler a escrever. Nesse papo, um estudante curioso me perguntou o que era a crônica para mim, porque ele tinha dificuldades em escrever nesse gênero, já que era jornalista e se preocupava sempre com os fatos. Fui longe para explicar como escrevo minhas crônicas. Comecei lembrando de onde eu vim, porque eu escrevia, como vivia e observava a minha vida. E lembrei de algumas coisas que me fizeram ter interesse em contar minhas histórias. Lembrei da vida gostosa que eu tinha.Preciso reconhecer que tive sorte, muita sorte mesmo, de ter nascido em 1984, de ser da década que as pessoas eram analógicas e tinham mais atenção. Nessa época, o celular não existia e as possibilidades de entretenimento eram bem maiores do que um celular. Foi sorte pura. Tivesse nascido um pouquinho depois, estaria nessa prisão que as pessoas carregam pra lá e pra cá em seus bolsos.As coisas que acontecem na internet são mesmo interessantes, reconheço. Quem conseguiria imaginar que um dia poderíamos todos nos conectar por um aparelho tão pequeno e, pra muita gente, tão cheio de vida? Se meu avô me lesse colocando tanto vida num aparelho morreria de novo, só que de desgosto. Hoje, muitas ideias e produtos “nascem” na internet. Vez ou outra até escuto alguém dizer que fulano nasceu na internet. É demais! Eu me lembro como nasci: da minha mãe, numa mesa de parto, dando um susto danado em todos, pois ninguém sabia que além de mim tinha outro por vir, que éramos gêmeos. Aliás, isso é outra coisa que muita gente de hoje nem sabe o que é: irmãos gêmeos. Voltando à minha sorte, tive sorte demais. Por ser dessa época, sei de umas coisas que essa nova turminha custaria a saber. Sei montar carrinho de rolimã, trocar e consertar chuveiro, fazer mudança, montar móveis e prateleiras, limpar casa, lavar louça, bater roupa no tanque e na máquina… Coisas que aprendi bem cedo em casa, com meu pai, minha mãe ou até meu avô, que era mecânico premiado e me ensinava tudo que podia sobre engrenagens e pipas. Eu também tinha interesse em saber das coisas, tinha tempo pra isso e por isso aprendi a mexer manualmente na vida: a fazer raia, pular muro de escola (coisa que desaprendi bem rápido depois que a mãe me deixou de castigo), jogar bola descalço.Fui lembrando e contando essas histórias a eles, de como as coisas aconteciam, como a gente sentia a vida na pele. Quando este jornal me convidou a publicar crônicas, não tive dúvidas que seria o espaço das minhas lembranças, desses meus causos, minhas perspectivas sobre a vida. Contei empolgado ao menino que me fez a pergunta toda minha trajetória até me profissionalizar escritor e quase fiquei sem ar de tanto falar. Quando olhei pro guri, ele estava mexendo no celular, totalmente desinteressado na resposta da pergunta que ele mesmo me fez. E eu pensei: é isso! Escrever uma crônica é isso. Retirar de um momento comum o que há de mais incomum. O problema é que nesse momento eu já nem sei quem é mais incomum, se sou eu ou ele.