Despedida constante

Despedida constante

Descobrir-se é um processo demorado. Primeiro, é preciso estar bem vivo para saber quem você é. Quando digo estar bem vivo quero dizer já ter vivido bastante para conseguir enxergar sua existência e analisar sua presença na Terra. 

Sou filho de psicóloga e, desde que me conheço por gente, sou estimulado a me conhecer. Conhecer-se é uma jornada que acontece, para mim, paralelamente à nossa vivência. Vivo e, ao lado dessa vida, uma pessoa, que sou eu mesmo, me olha, me questiona, me modifica e me aceita.

Não é fácil conhecer-se. Aceitar o que sou é também um processo lento, porque requer reconhecer falhas, desvios, erros, perdoar-se e reorganizar a vida para as cenas seguintes. 

Adulto, descobri com mais clareza quem sou (ou quem fui até aqui). Muitas coisas de mim resolvi abandonar. Não é uma tarefa simples abandonar costumes, características que carreguei por tanto tempo. Mas a experiência de me conhecer, de me conectar comigo mesmo, como disse atrás, não começou agora, então também aprendi a ter paciência para promover essas mudanças. 

A timidez, por exemplo, é uma característica que quis enfrentar assim que percebi como me prejudicava. Faço hoje uma comparação do Lucas tímido de cinco anos atrás e vejo como me modifiquei. Tive interesse nesse enfrentamento, porque em algum momento enxerguei como a timidez excessiva me atrapalhava a viver as experiências que gostaria de viver. Ser escritor, por exemplo, faz parte dessa mudança do tímido para o que sou: falo com os leitores, converso com plateias maiores, declamo poemas e, inclusive, falo sobre mim mesmo sem medo, como nessa crônica. Essa mudança é fruto de muita calma e aprendizado. 

Também já fui mais, como diz minha família, “estourado”, o mesmo que nervoso ou reativo. Reconhecer e me acalmar também foi (e ainda é) um processo lento. Não há mudança duradoura, sólida, que aconteça da noite pro dia. Isso eu aprendi escrevendo, quando comecei a rabiscar meus primeiros textos, e percebi como era difícil concluir uma boa frase. Mas eu queria escrever melhor e trabalhei isso por anos, estudando, lendo e, claro, escrevendo bastante, experimentando a escrita de todas as formas. A terapia, a busca pelo autoconhecimento, me deu paciência para ser a pessoa que eu gostaria de ser. A pessoa que estou sendo. 

Viver, de repente, seja isso, estar nessa constante transição entre o que fomos para o que vamos ser. Somos transitórios. E penso que quanto mais entendemos isso, mais nos abrimos para ser melhores. 

No último ano, trabalhei na terapia uma palavra importante para mim: espontaneidade. Modifiquei-me bastante refletindo sobre ela nas várias esferas da minha vida: familiar, profissional, amorosa. Os ganhos que tive transitando de uma pessoa retraída para uma pessoa mais confiante estão, inclusive, em noites de sono melhores. Hoje durmo com a certeza que fiz o que gostaria de fazer, falei o que precisava falar, resolvi o que precisava ser resolvido. 

E agora, estou aqui, numa recente transição, com uma palavra que, novamente, me conduz ao que ainda serei. A Dúvida. Isso é o que eu mais quero ter hoje: dúvida. Deixar de saber tanto das coisas que penso que sei, mas na verdade não sei. Ouvir mais, não ter obrigação de ter convicção sobre o que aprendi. 

Quero planar sobre a dúvida. Desconhecer o que aprendi, duvidar do que é certo ou errado. Manter-me mais tempo hesitado. Dar tempo para os meus pensamentos, me divertir com as redescobertas que fizer. E, enfim, me modificar, como fiz com a escrita, com paciência para chegar, daqui a cinco, dez anos ou mais, a essa nova pessoa que pretendo ser: uma pessoa que sabe tudo sobre si, mas que mal sabe do resto. 

Viver é uma despedida constante do que somos agora para o que vamos ser adiante.

1 Comment

  1. Camille Nolasco

    Muito bonita esta crônica! Principalmente pela abertura da alma.
    “Viver é uma despedida constante do que somos agora para o que vamos ser adiante.” – belo olhar sobre o desenvolvimento… mas seria o olhar de um ansioso, que já despede-se, no hoje, daquilo que ainda não terminou de viver?

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