Fazer coisinhas

Fazer coisinhas

Tenho vivido demais. Mas tenho vivido de menos também. Viver não pode ser só isso, fazer coisas e coisas e mais coisas. Ficar quieto, observar, ouvir, desfrutar o nada. E fazer coisinhas. Isso sim é viver.

Nós aprendemos que viver é crescer. Você nasce, desenvolve-se, aprende a andar, falar. E aí, depois da fala, a coisa começa a ficar muito séria. A gente estuda. E é cobrado todo dia para ser melhor, nunca pior. (Não seria legal uma vida onde a gente nascesse sabendo de tudo e fosse cobrado todos os dias para saber cada vez menos e menos e menos?)

Viver não pode ser só isso. Depois tem a faculdade, o trabalho. E no trabalho somos cobrados todos os dias para sermos melhores, mais produtivos, mais rápidos, menos atrasados, para alcançarmos cargos maiores, salários maiores, cadeiras mais confortáveis, carros mais caros, viagens mais distantes e luxuosas. Filhos. Muitos filhos. E o ciclo começa outra vez. Viver não pode ser só isso. 

E depois que a gente vai envelhecendo, começam a nos cobrar os aposentos, bons aposentos, aposentadorias, e mais vida, e mais vigor, “não desista”. Viver não pode ser só isso. 

Viver é no detalhe. Fazer um verso aqui, com calma, demorar dois dias rabiscando uma frase, trocando palavras, fazer outro verso aculá. Essa demora, essa paciência, como se as horas “inda” nem tivessem sido inventadas. Fazer um café. Tomar o café devagar. Queimar a língua. Soprar o café com mais calma ainda. Esperar esfriar com os olhos na fumaça que sai da xícara. Comer um pão quentinho, de uma padaria que abriu bem cedo, de um percurso que você fez ainda mais cedo e devagar, bem devagar.

Viver é devagar. O bom dia que a gente dá não tem pressa para receber outro de volta. “Tudo bem?”, tudo bem sim, como é que vai a filha? O tio já saiu do hospital? Passa lá em casa mais tarde pro café, e ele passa. E o café está quente outra vez. 

E as pessoas se beijam de outro jeito. Se beijam beijando, boca com boca, boca com bochecha, bochecha com bochecha, tudo é beijo quando as peles se pegam e se acarinham de verdade. Os vinhos não precisam ser tão caros. Caras são todas as histórias que os vinhos escutam. Caras não. Valiosas. Os silêncios também são valiosos quando a vida desacelera. 

E as palavras. Viver não pode ser só isso, de escrever rapidinho, de não encontrar outras palavras pra contar as outras histórias. Viver não pode ser só isso, de escrever textos ruins, de ler poemas ruins porque a vida acelerada nos impede de tricotar os versos para pessoas lerem versos melhores. Viver é na beira, na margem, distante do centro, do jeito comum, da muvuca. Viver é um espanto, como é a poesia, como são os poetas, espantados com tudo que veem. 

Viver é isso, uma surpresa, um espanto, um café, um poema, um beijo. Tudo muito demorado, como se as horas inda nem existissem. Como se a pressa fosse uma coisa que pouca gente viu, coisa de história, de fantasma, lenda pra criança dormir cedo. 

Viver não pode ser só isso.  Mas pra muita gente é.  

Que não me falte a vagareza pra viver como os poetas dos tempos que eu não conheci. Dos tempos que os relógios ficavam mais bonitos nos braços que na angústia. Que sempre sobrava tempo para fazer coisinhas.