Homem de palavra

Homem de palavra

Às vezes fico horas divagando sobre a escrita. Penso muito no meu caminho, em como cheguei à minha profissão de escritor. Lembro-me de como demorei a me despertar para a palavra. E depois, em como também foi duro aprender a escrever com prazer. No começo foi difícil.

Confesso – mas com muito medo de fazer uma crítica errada aos meus antigos professores – que não me senti estimulado a escrever enquanto estava na escola, no primário nem no ensino médio. Se escrevi, foi pensando em ficar livre da atividade o quanto antes para fazer outras coisas. Eu não gostava nem de ler, e odiava gastar o tempo que tinha para jogar bola ou videogame lendo livros. 

Mas lembro-me de um professor, o Paulo Roberto, que mudou a minha jornada. Se agora percorro o caminho da escrita, sem dúvida que foi por mérito de professores como ele, que me mostraram jeitos mais carinhosos de colocar palavras no papel. Tive aulas com o Paulo quando me preparava para o vestibular. Ele me mostrou que eu podia escrever o que eu pensava, cuidando da coesão e coerência. Aprendi a botar ordem no pensamento e, em seguida, a transcrever o pensamento para o papel. Descobri que escrever nada mais é do que colocar na folha as mesmas palavras que usamos quando conversamos. A não ser quando se escreve poesia. Poesia é o contrário de tudo – mas isso é outra história. 

Também virei escritor de outros gêneros, como de crônicas, dando mais atenção a mim, às minhas histórias, minhas memórias, minhas observâncias sobre o mundo. Assim fui descobrindo mais temas para escrever. E quanto mais escrevia, mais definia o meu jeito de rabiscar. Uma jornada longa, ainda em curso, mas muito mais prazerosa da que aprendi nos tempos da escola. 

Vejo que a escrita é mesmo uma atividade distinta, que quem a exerce por prazer, se distancia bastante de quem a executa por obrigação, seja na escola ou no trabalho. Mas não devia ser assim. Escrever devia ser tarefa prazerosamente igual para todos. Encontrar uma frase bonita, entregá-la a alguém ou a si mesmo é tão gostoso. É um prêmio quando lapidamos nossos pensamentos e concretizamos eles em frases, parágrafos, poemas. Quando fazemos com clareza, quando alguém lê e nos compreende, por mais poético ou filosófico que possa ser o texto, há uma conquista importante: a de sermos compreendidos. É fundamental ser compreendido para que ocupemos o nosso lugar no mundo. A escrita nos ajuda a ocupar esse lugar, que é único. 

Ampliar nossos recursos para nos comunicarmos melhor é mais do que preciso, é elegante. Já repararam como são mais interessantes as pessoas que sabem usar as palavras? As coisas que elas dizem nos surpreendem, emocionam, prendem a nossa atenção, criam vínculos fortes. Escrever é uma arte, que não deve ser exercida só por artistas profissionais. Os amadores, que amam viver, precisam escrever. Experimentar a vastidão que cada palavra tem é uma forma de ampliar nossa vivência na Terra.

Quando descobrimos a palavra, a imensidão que ela tem, desvendamos um pouco mais sobre o mistério da nossa existência.