Me chamam pelo seu nome

Me chamam pelo seu nome

Uma vez, ainda quando fazíamos a primeira série, meu irmão gêmeo quebrou o braço direito numa das nossas brincadeiras no sofá e penou muito, principalmente para estudar. Na mesma semana, nossa professora resolveu aplicar uma prova surpresa de matemática. Eu, com muita dó do Henrique, assim que terminei minha prova, sussurrei a ele que trocássemos de lugar para eu fazer sua prova. Mudamos sem a professora perceber. Fiz a prova pra nós dois e tiramos zero. Ele nunca mais quebrou o braço e eu passei a estudar mais matemática. 

Das coisas que mais me perguntam é se gosto de ter um irmão gêmeo. E a resposta é sim. Eu adoro ser dois, ter essa identidade dupla, Lucas/Henrique, que me diverte e diverte as pessoas também. Não são raras as vezes que sou confundido com ele por amigos ou familiares. Já me acostumei a atender pelos chamados de “Henrique” e ele também, quando o chamam de Lucas. Normal. 

É fato: todos que dizem que não nos confundem, que somos muito diferentes, um dia já se confundiram ou se confundirão em seguida dizendo “por exemplo, você é o Henrique”. Meu pai dizia que sabia exatamente quem era quem. A não ser quando lavávamos o cabelo ou saíamos da piscina. “De cabelo molhado é covardia”. 

Por muito tempo, fui um pouco mais gordinho que ele. Há suspeitas que eu tenha me favorecido da nossa semelhança para mamar um pouco mais. Minha mãe dizia que às vezes ficava um pouco confusa na hora de dar o leite, sem saber quem ela já tinha amamentado. De repente, descobriu uma manchinha de nascença no rosto de um, que garantiu certo controle na amamentação. Já discutimos até se eu sou eu mesmo ou se eu sou o Henrique. É muito possível que, em algum momento da fase bebê, meus pais tenham nos trocado. Talvez eu seja o Henrique e não o Lucas. E vice-versa. Mas já desencanamos disso. Seremos Lucas/Henrique pra sempre. 

Outra coisa que muito nos perguntam: se já trocamos namoradas usando a tática dos gêmeos. E não, nunca trocamos. Mas elas já nos trocaram algumas vezes. Um dia, caminhando ao lado do Henrique, que estava de mãos dadas com sua namorada, conversávamos sobre amenidades. De repente, ela se virou para trás para ver algo e, quando voltou, segurou minha mão e caminhamos assim por alguns metros. Claro que fiquei desconfortável por alguns segundos, até entender o que estava acontecendo, mas não mais do que ela, que nunca mais se recuperou. Normal. Noutra situação, esperávamos nossas namoradas numa praça, de noite, e quando elas chegaram, não hesitaram em dizer que não sabiam quem era quem, pedindo que nos identificássemos logo. 

Eu adoro ter um irmão assim, com a minha cara e o meu DNA. Curiosidade: você sabia que irmãos gêmeos univitelinos precisam de um teste de DNA específico para atestar paternidade? Em casos de testes normais, o resultado dá positivo para os dois. 

Hoje, com 35 anos, a vida nos distanciou um pouco. Ele mora em Anápolis, eu em Goiânia. Temos gostos mais distintos, as roupas são diferentes, os cabelos, mesmo molhados, não se parecem tanto, o porte físico… 

O que nunca vai mudar é a preocupação e o carinho que temos um com o outro.  E, claro, essa mania que o povo tem de me chamar pelo seu nome.