Memórias inventadas

Memórias inventadas

Logo eu, tão ruim de memória, me pus a escrever um livro de crônicas baseadas nelas, nas minhas memórias. 

Dizem que quando a gente escreve, metade do texto é lembrança de coisas que a gente viveu e a outra metade é invenção. No meu caso eu diria que oitenta porcento é invenção. Os outros vinte porcento eu não lembro. 

Mas gosto de tentar alcançar minhas memórias quando me sento para escrever crônicas. Esse é o gênero que elas, as recordações, mais se encaixam na escrita. Baseados em fatos reais, meus textos partem de pedaços de memórias para serem concluídos sem muita certeza dos fatos. Já escrevi sobre o quintal da minha avó, a Jovita, mãe de meu pai. Sobre a minha outra avó, só de escrever o seu nome, Clariscinda do Amor Divino, já valia uma crônica. Mas também já escrevi sobre a vida da Nininha, dona Clariscinda. Dela, falei de como, com o seu jeito mineiro, ela ganha coisinhas de todo mundo. Coisinhas é o mesmo que amor em mineirês. 

Com as crônicas, ganhei essa rotina, a de buscar na memória histórias para escrever. 

Tem sido um bom exercício, parar alguns dias para lembrar das histórias. Um exercício que tem me devolvido memórias e me dado saudade demais. 

Hoje lembro com perfeição dos detalhes do quintal da vó, a paterna, dos pezinhos de morango que ficavam na pequena horta que ela cultivava nesse espaço. De como a gente chegava correndo no quintal para procurar um morango no pé, pegar e chupar. Lembro que a gente chegava esbaforido ao fundo da casa, mas só até ver o cachorro amarrado na árvore por uma corrente bem grossa. Dava tanto medo, que às vezes até passava a vontade de chupar morango. 

Também não tem uma vez que não eu pense no meu vô Miguel quando começo a acessar minhas memórias. São saudades bem fortes que tenho dele. Falo agora do avô materno, das casas que ele morou… Tenho muitas histórias nas casas que o Miguel teve quando eu era criança.

O vô gostava de casas. Não tinha muitas. Na verdade, só uma, mas gostava de mudar de casa, principalmente quando tinha uma dívida para pagar. Vendia uma casa grande, pagava sua dívida e se mudava pra uma menor. Foi assim que minha avó foi abrindo mão de viver com conforto pra morar apertadinha, em casas com quintais, cada vez, menores. 

Lembro de uma casa que eles moraram, que tinha uma frente bem grande. A rampa da garagem levava pra porta da casa. A porta da casa dava pra uma sala espaçosa. Da sala íamos pros quartos, banheiro ou pra cozinha. A cozinha era grande também e dava para os fundos da casa. No fundo, ainda tinha uma área coberta, que o vô ora usava pra fazer alguma festa, ora pra guardar os entulhos. E também tinha um cômodo, que ele havia construído por último. Não me lembro o que ele guardava nesse ambiente, mas recordo que ele ocupava uma parte importante do espaço que o gente mais gostava, o quintal. O mais legal dessa casa estava nesse quintal. Era um fundo bem grande o dessa casa, e o quintal se perdia nesse espaço. Tinha pé de todo tipo de fruta, de manga, banana, fruta do conde, amora, carambola… Que eu gostava, era só da manga e banana, mas adorava subir nas árvores que me davam pé, independente da fruta. Era a nossa brincadeira favorita. Minha, dos meus irmãos e dos primos. 

A gente brincava de subir nos pés a tarde inteira, e depois ainda tinha energia para brincar de tudo que criança antiga gostava de brincar. Brincava de pega, de esconde, amarelinha, tudo nesse quintal, em tardes bem longas, em noites imensas. 

A família também se encontrava bastante por ali, ora catando fruta, ora proseando numa sombra de uma árvore maior. E o vô adorava nos ver utilizando essa casa. Ele amava nos ter por perto. Aos domingos, sempre inventava uma reunião de família, um almoço especial, só pra garantir que a gente estaria ali, brincando no quintal.

Gosto dessa lembrança que tenho das casas do vô, desses momentos que a gente não vê mais acontecer nos quintais das casas grandes, que estão mais cheios de vazios que de frutas ou de gente. 

Gosto de usar minha memória pra sentir saudade desses momentos. Mesmo sabendo que oitenta porcento das minhas lembranças é invenção e os vinte porcento que faltam eu não lembro.